Aula de Roteiro 09

Postado em Uncategorized em fevereiro 8, 2010 por zaphq

Como prometido, nesta aula, ao invés de analisarmos uma obra do cinema, como “Chinatown”, começamos a analisar uma obra das HQs. Refiro-me ao arco chamado “Nova Ordem Mundial”, da Liga da Justiça de Grant Morrison. Esse arco foi a estréia do escocês com a maior equipe de super-heróis de todos os tempos.

Embora Morrison raramente seja simples no que escreve, “Nova Ordem Mundial” tinha a função de ambientar a nova Liga da Justiça, mostrando aos leitores qual seria a nova cara cada equipe. Sendo assim, perto do que faria depois, “Nova Ordem Mundial” beira à simplicidade mesmo, mas nem por isso deixa de ser empolgante.

Nesse arco, a recém-formada Liga da Justiça contendo apenas os medalhões da editora depara-se com a ameaça de uma equipe de extraterrestres que muda o mundo de forma que a Liga nunca pôde – ou nunca quis – ganhando a simpatia da população. Porém, mal sabe a LJ – e também o mundo – que os tais “bem-feitores” são marcianos brancos querendo dominar o planeta. É uma trama que, ao primeiro olhar, é batida, podendo cair na mesmice na mão de qualquer outro roteirista. Mas como sempre os roteiristas se perguntam ao se deparar com esse tipo de coisa, “qual a novidade que posso mostrar a um tema já visto milhares de vezes antes?”

O tema de invasão alienígena já foi visto das mais diversas formas. Se alguém consegue mostrar um novo ponto de vista, parabéns. Por enquanto, vamos ver porque um escritor conceituado como Morrison escolheu uma linha de argumento tão batida para sua estréia com a equipe.

A LJ vinha de algumas formações não muito consistentes. A DC, querendo tornar sua equipe realmente grande como sempre disse que era, chamou Morrison, talvez na época, o único que pudesse ter a mão pra isso, a ser o chefe da reformulação do título. Para isso, ele exigiu apenas os medalhões: Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Flash, Lanterna Verde, Aquaman e Ajax. Esses personagens nunca estiveram todos numa mesma equipe antes e ver a dinâmica entre eles e como seria o futuro da equipe era primordial. Sendo assim, o primeiro arco teria que ser uma apresentação geral. Em outras palavras, em “Nova Ordem Mundial”, Morrison mostra o leitor o que o espera pelos próximos arcos até o fim de seu contrato.

E que tipo de trama funcionaria perfeitamente como uma apresentação das características da equipe? Uma invasão alienígena, naturalmente. O intuito do escocês não foi criar uma obra marcante demais e nem que o arco entrasse para o hall de seus grandes trabalhos – ainda mais visto o que ele fez nos arcos seguintes com a equipe, fora seus outros trabalhos. Era a pura e simples apresentação mesmo.

Tendo isso em mente, vamos ver as características de “Nova Ordem Mundial”: arco em 4 edições, o que significa que teremos 1 edição para Ato I; 2 edições para o Ato II e, consequentemente, 1 edição para o Ato III. Isso preenche o esquema do paradigma de 25%/50%/25%. Obviamente, o Ponto de Virada I fica no final da 1ª edição e o Ponto de Virada II fica no final da 3ª edição.

NOVA ORDEM MUNDIAL – 1ª EDIÇÃO

Ato I

Como visto em uma aula anterior, temos o Paradigma do arco, que é o explicado acima, mas também temos o paradigma para cada edição; de modo que cria-se sub-pontos de virada que auxiliam – mas não são mais forte que – os pontos principais, que são os Pontos de Virada I e II do arco. Isso faz com que cada edição tenha seus Pontos de Virada I e II, criando a sensação de montanha-russa em todo o arco.

A personagem principal do 1º arco da LJ de Grant Morrison não é nenhum dos heróis. É Protex, líder do Hyperclan, que é como os marcianos brancos se disfarçam para aparecer na Terra. Se Protex não decide invadir a Terra, não tem estória. São as ações dele em nosso planeta que fazem a LJ se mexer; primeiramente acompanhando as tais maravilhas feitas por seus camaradas e depois de descoberta a verdade, é lutando contra eles. A LJ apenar reage contra Protex e seus irmãos.

Alguém pode perguntar algo como “Mas se Protex é a personagem principal do arco, por que ele aparece menos do que boa parte dos heróis da Liga?”

Há uma linha de pensamento enganosa que diz que todo personagem principal é aquela que precisa aparecer mais ou que tem seu nome na capa.

Errado.

Veja “Branca de Neve e Os Sete Anões”. A personagem principal não é Branca de Neve. É a Rainha Má. Ela quer – seu objetivo – ser a mais bela do mundo. E por um determinado tempo ela é. Até que a Branca nasce, cresce e se torna belíssima. Quando descobre a existência dela – o Ponto de Virada I – começa a fazer de tudo para matar a pobre menina. E assim vai.

Caso a Rainha Má não ligasse mais para o fato de ser a mais bela ou se ela por algum outro motivo nem quisesse fazer nada contra a Branca, não teríamos estória. E Branca continuaria lá, com seus afazeres e com seus passarinhos, sem ser ameaçada, sem conhecer os anões, entre outros detalhes dessa clássica estória. O mesmo acontece no caso de “Nova Ordem Mundial”. Além do mais, a personagem principal também pode ser apresentada sem que apareça fisicamente no Ato I, como visto em “Cidadão Kane”. Conhecemos Kane através das conversas entre outras personagens e através do rádio e dos jornais. No início da 1ª edição, Morrison faz o mesmo com Protex.

As cidades marcianas foram destruídas. A civilização marciana não mais existe. Não há mais condições de morar em Marte. Mas se Ajax era o único, onde estavam esses marcianos brancos? Em um lugar chamado Zona Estável, onde foram presos pelos marcianos verdes após serem punidos por interferir na vida de outro planeta no passado. Que planeta? A Terra. Descobrimos isso na 4ª edição, mas coloco aqui apenas para mostrar onde eles estavam antes do início de “Nova Ordem Mundial”.

No começo da 1ª edição vemos a Casa Branca. O Presidente está conversando com um de seus acessores sobre problema em relação a uma pequena, fictícia e problemática nação latina. Durante a conversa, a primeira pista: Águia Flamejante perdeu seus poderes ou “algo assim”. Ela seria a acompanhante meta-humana do Presidente nessa questão. Enquanto a conversa se desenrola, uma nave alienígena, ao estilo Independence Day, paira do nada sobre a Casa Branca, alertando os EUA. Consequentemente, chamam a LJ.

Enquanto a Liga está para chegar, vemos uma mini-estação espacial em órbita da Terra. Lá dentro estão Metamorfo, Nuklon, Dama do Gelo e Manto Negro. Eles estão preparando alguns equipamentos para que a nova Liga da Justiça possa começar a operar desde já. Enquanto fazem isso, detectam a nave alienígena, que teria passado pelos sensores deles sem problema algum, o que os deixa espantados. Conforme a conversa sobre a nave se desenrola, vem a confirmação da primeira pista: Dama do Gelo diz que “Fogo não vem porque perdeu os poderes ou ficou doente”. Fogo e Águia Flamejante tem poderes baseados no Fogo. Morrison está mostrando que algo já estava sendo feito para prevenir os marcianos brancos contra sua maior fraqueza. Essas pistas já apresentam, sem revelar diretamente, quem é a nova ameaça. Em uma primeira leitura, tais informações ajudam ainda a confundir o leitor. Naquela época, de marciano, só existia o Ajax. Não se sabia que marcianos brancos ainda estavam vivos. Mesmo que alguém pense na hipótese de marcianos, seria facilmente descartada por qualquer um. Essas duas pistas já dão uma das características de Protex – a personagem principal – e seus companheiros.

Rapidamente, o primeiro a chegar na Casa Branca é Superman. Morrison sabiamente escolhe que ele seria o primeiro da nova LJ a aparecer, afinal, ele é o suporte moral da equipe. Lá, Superman está para dar assistência diplomática e ainda cuidar da segurança de todos, pois não sabem de onde vem a nave, se será um contato amistoso ou hostil. E eis que de “ovos tecnológicos” depositados pela nave saem os integrantes do Hyperclan, alegando que vieram “salvar o mundo”.

Todo esse pedaço perfaz o Ato I da 1ª edição e o Ponto de Virada I. Mas como?

Cada edição tem 22 páginas. Desse modo, o paradigma de cada edição fica assim:

Ato I – 25% = 5,5 páginas

Ato II – 50% = 11 páginas

Ato III – 25% = 5,5 páginas.

Então o Ato I tem que ser apresentado até o meio da quinta página, que é onde o Ponto de Virada I do capítulo – mas não do arco – deve ser mostrado.

A descrição dos acontecimentos acima corresponde às cinco primeiras páginas do 1º capítulo. O Ponto de Virada I é quando Protex aparece fisicamente com seus companheiros dizendo que vai melhorar o mundo. Embora ele ganhe a atenção e a simpatia do mundo conforme veremos adianta, essa apresentação “calorosa demais” fará com que os membros da nova LJ fiquem desconfiados. A apresentação que Protex faz chama atenção demais e, com certeza, serão investigados pelos heróis. Por isso a apresentação é o problema que Protex terá que enfrentar para fazer seu plano seguir adiante. Antes disse, a nave está lá, as pistas sobre heróis baseados em fogo estão lá, ou seja, indiretamente e discretamente, Protex foi apresentado.

Ato II

Na sequência já vemos a reação da população ao Hyperclan através dos telejornais. Através deles, os membros da LJ apenas acompanham as ações dos novos visitantes. Os telejornais mostram a desculpa de Protex: eles são alienígenas cujo mundo foi abusado por eles, de forma a ficar inabitável e que agora eles vagam pelo universo promovendo mudanças para melhor em vários mundos para que a esterilidade planetária não seja razão de sofrimento de mais nenhum ser vivo.

Logo em seguida, os telejornais já mostram o Hyperclan promovendo as tais mudanças, como por exemplo, tornar apto para plantação um solo antes inutíl. A primeira reação contrária vem de Superman, que na frente de todos os jornalistas, avisa que tais mudanças podem ser apenas cosméticas  e que mexer demais e muito rápido com a natureza pode ser desastroso demais. Dessa forma, ele apenas pede que o Hyperclan vá com calma a fim de que tudo seja realmente bom para a humanidade e que as pessoas tenham calma com as mudanças que o Hyperclan vem fazendo. Os jornalistas acabam interpretando mal o grande herói, tornando-se contra as alegações dele. Protex, habilmente usa tal acontecimento a seu favor, dizendo aos jornalistas para “não serem injustos com o Superman”, fazendo com que ele fique com uma fama ainda maior de “salvador” do que o herói de Krypton. Superman foi claramente usado como muleta para o leitor.

Cortamos para outra hora e lugar. Um supervilão X é executado pelo Hyperclan. Isso mostra que as mudanças não se restringem ao mundo físico, mas que eles querem acabar de vez com o mal, começando pela criminalidade. Na verdade, os marcianos, ao usar de sentença de morte para eliminar criminosos, dá a falsa sensação de segurança para a população ao mesmo tempo que elimina possíveis ameaças. Com tal execução, os crimes meta-humanos caem vertiginosamente, mesmo em Gotham City, como mostra a imprensa.

De volta à mini-estação onde estavam Metamorfo, Manto Negro e cia, o Lanterna Verde Kyle Rayner está com a Mulher-Maravilha acompanhando a transição dos recursos para a equipe ao mesmo tempo que conversam sobre o Hyperclan. Rapidamente, a estação é invadida por uma ameaça desconhecida. São seres humanóides em trajes espaciais. Em nenhum momento tempo pistas de quem são. Os heróis desconfiam do Hyperclan, mas não há confirmação alguma. Sabemos apenas que são poderosos, pois atravessam sem dificuldade o casco da estação. Como apenas o Lanterna pode respirar no espaço graças a seu anel, ele retarda os invasores com a ajuda da Mulher-Maravilha para que os outros heróis consigam fugir antes de morrerem asfixiados.

Enquanto Lanterna e Mulher-Maravilha combatem no espaço, Metamorfo tem uma idéia completamente suicida, executando-a e salvando seus companheiros, mas ficando completamente inerte.

O Ponto de Virada II vem agora: Ao mesmo tempo que vemos Metamorfo agindo, em outra parte vemos Protex trazendo à tona um maquinário alienígena escondido em alguma parte de nosso planeta. Essa é a indicação de que os marcianos já estiveram aqui antes, como será mostrado no capítulo 4. Além disso, esse maquinário é a futura base do Hyperclan, que será usada mais tarde para aprisionar a Liga. Sem essa base, que contem uma máquina chamada “Flor da Ira”, seria impossível capturar os heróis. Como sabemos que o Ponto de Virada II é “acontecimento que salva ou condena a personagem principal”, a ativação dessa base é que permitirá que Protex siga adiante com seus planos.

Ato III

Imediatamente a nova LJ começa a se juntar para conversar sobre o Hyperclan. Mais uma vez, através dos jornais, vemos que a população abraça cada vez mais a existência do Hyperclan e que por algum motivo não muito claro, a LJ estaria para iniciar um confronto com os alienígenas. Conforme Superman, Lanterna Verde e outros conversam sobre o atentado à estação espacial, Batman revela sua presença e descobre durante o diálogo que o Hyperclan está usando de táticas de controle mental. Resumindo, agora sabem que é uma invasão e vão partir para o contra-ataque.

Assim acaba o 1º capítulo de “Nova Ordem Mundial”.

Como comentei antes, o Ponto de Virada I do arco é o final da 1ª edição. Qual seria esse acontecimento? É Batman descobrindo que é uma invasão de verdade e declarando guerra. Protex não conseguiu segurar um de seus segredos durante muito tempo.

Protex veio, se apresentou, disse que ele e seus companheiros estariam na Terra para melhorar o planeta. Ele começou a promover falsas mudanças para ludibriar a população enquanto que seus companheiros começavam por detrás dos panos a cuidar dos seres superpoderosos da Terra. A Liga apenas acompanhou tudo e colheu dados e informações. Batman foi a cereja do bolo.

Lendo isso, fica clara a apresentação do arco na 1ª edição, com seu Ponto de Virada I.

Na próxima aula veremos a 2ª edição de “Nova Ordem Mundial”.

Aula de Roteiro 08

Postado em Uncategorized em fevereiro 4, 2010 por zaphq

Eis que continuamos com a análise de “Chinatown”, clássico do cinema e grande roteiro escrito por Robert Towne. Quem quiser a versão em português do trecho do roteiro do filme, mande e-mail para emiliobaracal@gmail.com

“Sabe de uma coisa, Jake?”, Curly diz a Gittes na página 3, “Acho que vou matar ela (sua esposa)”.

Gittes responde com os diálogos proféticos que ilustram o ponto de vista de Towne. Você tem que ser rico pra matar alguém, qualquer um, e livrar-se disso impune. “Você acha que tem esse tipo de grana, que tem esse tipo de classe?” – Ironicamente, essa foi uma das cenas cortadas quando o filme foi adaptado para a TV americana.

Curly certamente não pode escapar impune do assassinato, mas Noah Cross (John Huston), pai de Evelyn Mulwray e ex-chefe do Departamento de Água e Energia ao mesmo tempo em que Hollis Mul­wray, pode e escapa. O final do filme mostra John Huston carregando sua filha/neta para a escuridão da noite após Faye Dunaway ter sido morta tentando escapar. Esse é o ponto de vista de Towne: “você tem que ser rico para matar alguém, qualquer um, e livrar-se disso impune.”.

Isso nos leva ao “crime” de “Chinatown”, um esquema baseado no escândalo da água conhecido como A Violentação do Vale Owens. Esse é o pano de fundo de “Chinatown”.

Em 1900, a cidade de Los Angeles, uma “comunidade no deserto” como um ex-prefeito de lá cos­tuma sempre lembrar, crescia e se expandia tão rápido que literalmente não tinha água. Se a cidade quisesse sobreviver, teria de encontrar outra fonte de água. L.A. é vizinha do Oceano Pacífico. As pessoas podem nadar nele, podem pescar, velejar nele, mas não podem beber dele, não podem regar seus gramados com ele e não podem irrigar um laranjal com ele.

A água mais próxima de L.A. é o rio Owens, localizado no Vale Owens, uma área verde e fértil a cerca de 250 milhas a nordeste de Los Angeles. Um grupo de negociantes, líderes comunitários e políti­cos – alguns os chamam de “homens de visão” – enxergaram a necessidade de água e conceberam um esquema maravilhoso. Eles adquiriram os direitos sobre as águas do rio Owens, pela força se necessário, e depois compraram toda aquela terra sem valor no Vale San Fernando, cerca de 20 mil­has afastado de L.A. Eles emitiriam então um bônus que levantaria fundos para a construção de um aqueduto desde o Vale Owens, através de 250 milhas de deserto escaldante e montes recortados, até o Vale de San Fernando. Eles venderiam a agora “fértil” terra do Vale de San Fernando para a cidade de Los Angeles por uma enorme soma de dinheiro; cerca de 300 milhões de dólares.

Esse era o plano. O governo conhecia, os jornais sabiam dele, todos os políticos locais tinham con­hecimento dele. No tempo certo, as autoridade “influenciaram” o povo de Los Angeles a aprovar a emissão dos tais bônus.

Em 1906, uma seca assolou Los Angeles. As coisas ficaram ruins, depois pioraram. As pessoas foram proibidas de lavar seus carros ou regar seus gramados; não podiam dar descarga no vaso sanitário mais que umas poucas vezes ao dia. A cidade secou; flores morreram, gramados amarelaram e man­chetes assustadoras estampavam “Los Angeles morre de sede!” “Salvem nossa cidade!”

Para ressaltar a necessidade drástica de água durante a seca e para assegurar que os cidadãos aprovariam a emissão dos bônus, o Departamento de Água e Energia despejava milhares de litros de água no oceano.

Na hora de votar, a emissão dos bônus foi aprovada facilmente. Levaram vários anos para completar o aqueduto do Vale Owens. Quando ele foi finalizado, William Mulholland, então chefe do Departamento de Água e Energia, entregou a água para a cidade: “Aí está ela”, ele disse. “Podem pegá-la.”

Los Angeles floresceu e cresceu como um incêndio, o vale Owens definhou e morreu. Não admira que isso tenha recebido o nome de A Violentação do Vale Owens. Robert Towne pegou esse escândalo que ocorreu em 1906 e usou-o como pano de fundo em Chinatown. Ele mudou o período da virada do século para 1937, quando os elementos visuais de Los Angeles tinham a aparência clássica e distinta do sul da Califórnia.

O escândalo da água é tramado através do roteiro, e Gittes o descobre uma parte de cada vez. Eis porque é um grande filme. “Chinatown” é uma viagem de descoberta. Descobrimos as coisas ao mesmo tempo em que Jake Gittes. Público e personagem estão liga­dos, reunindo pedacinhos e retalhos de informação, e os montando ao mesmo tempo. É uma história poli­cial, afinal.

Syd Field, conhecidíssimo professor de roteiro e con­sultor em Hollywood passou bastante tempo analisan­do o roteiro de “Chinatown”. Quando soube que um escândalo da vida real havia sido usado como pano de fundo para o ponto de vista de Robert Towne para uma história policial, ele decidiu que deveria saber mais sobre o Vale Owens. Ele então pesquisou a pesquisa de Towne. Descobriu as origens, anteced­entes e fatos do escândalo do Vale Owens. Da próxima vez que ele leu o roteiro e assistiu ao filme, era como se estivesse vendo pela primeira vez.

O escândalo de água que Noah Cross concebe e executa, o crime que causa as mortes de Hollis Mul­wray, Leroy o bêbado, Ida Sessions e finalmente Evelyn Mulwray, o escândalo descoberto por Jake Gittes, é tramado com grande sutileza e habilidade através de todo o roteiro.

E Noah Cross livra-se sem responder ao assassinato.

Tudo isso é estabelecido e apresentado na página 8, quando Gittes está na câmara do conselho e ou­vimos Bagby argumentando que “oito milhões e meio de dólares é um preço justo a pagar para manter o deserto longe de nossas ruas – e não em cima delas”.

Mulwray, o personagem baseada em William Mulholland, replica que o local do dique é inseguro, como ficou provado com a catástrofe de Van der Lip, e diz, “Não vou construí-lo. É simples assim – não vou cometer o mesmo tipo de erro duas vezes”. Ao recusar-se a construir o dique, Hollis Mulwray tornou-se alvo para assassinato; ele é um obstáculo e deve ser eliminado.

De novo, na página 10, a questão dramática do roteiro é levantada: “Você rouba a água do Vale, ar­ruína os pastos, faz meu rebanho morrer de fome” – grita o fazendeiro que invade as câmaras. “Quem lhe paga para fazer isso, Sr. Mulwray, é o que eu quero saber!”

Gittes também quer.

Esta é a questão que conduz o filme para sua res­olução final e é inteiramente apresentada desde o início, nas primeiras dez páginas, e move-se numa direção linear até o fim.

Ao introduzira Personagem Principal, estabelecer a premissa dramática, criar a situação dramática, o roteiro movimenta-se com precisão e habilidade para sua conclusão.

“Ou você traz a água para L.A. ou leva L.A. até a água”, Noah Cross diz a Gittes.

Esse é o fundamento de toda a história. É o que a faz tão boa. Simples assim.

Na próxima aula, análise de uma estória de Grant Morrison, para ver como tudo se aplica às HQs.

Anarquia: 1ª arte de divulgação.

Postado em Uncategorized em janeiro 23, 2010 por zaphq

Imagem-teaser de Anarquia, dando um palhinha do que ainda está por vir, cortesia da fantástica Cynthia França.

E ainda há as versões em wallpaper, que você pode pegar no Delfos, clicando aqui.

Anarquia é criação dos roteiristas Emílio Baraçal e Carlos Eduardo Corrales em conjunto com a artista Cynthia França.

O título mostra a busca por identidade de Adriana Katsumoto, cuja vida foi secretamente manipulada pelas autoridades para fins obscuros. No intuito de tomar o controle de sua própria vida, Adriana vê-se cada vez imersa na podridão e nas sujeiras dos bastidores do poder. Ao perseguir o que tanto deseja, acabará tendo que encarar políticos e empresários corruptos e seus inescrupulosos esquemas de propinas e acordos. Ao criar a persona de “Anarquia”, ela levará medo aos que sugaram da sociedade durante anos, tirando o poder deles e levando novamente ao povo.

Se quiser conhecer mais obras de Cynthia França, clique aqui e aqui.

Enquete #01

Postado em Uncategorized em janeiro 12, 2010 por zaphq

Eis que o Zap!HQ inaugura uma seção de enquetes. Esta é a primeira de muitas que virão. Os assuntos naturalmente abordarão detalhes do mercado editorial e dos projetos do Zap!HQ. Tudo para conhecermos melhor o perfil do público visitante, de maneira a termos mais chance de criar histórias cativantes e interessantes.

Ei-la:

Aula de Roteiro 07

Postado em Uncategorized em janeiro 12, 2010 por zaphq

E eis que continuamos a destrinchar o Ato 1.

OS DEZ PRIMEIROS MINUTOS – TRATAMENTO

Ato 1 – Cena de Abertura - O INCIDENTE PROVOCADO

É um incidente, episódio ou acontecimento que providencia o gancho dramático (ou de comédia) que estabelece o rumo da estória. Algumas vezes um assassinato será cometido, então a Personagem Principal se envolve, investigando o crime. O propósito é conquistar a atenção de seu público já no começo. Em “Maré Vermelha”, são as tomadas dos rebeldes russos no jornal, tomando conta do Kremlin e ameaçando lançar um ataque nuclear aos EUA. Em “Um Sonho de Liberdade”, é a cena do bêbado no carro que abre o filme. Esse é o ponto de partida do filme.

Ato 1 (páginas de 1 a 10)

A unidade dramática mais importante de todo o roteiro. A linha da estória inteira é colocada e estabelecida dentro dessas dez páginas.

Três coisas essenciais devem ser estabelecidas: 1) A Personagem Principal (sobre quem a estória fala); 2) A premissa dramática (sobre o que a estória fala); 3) Situação dramática (como a premissa dramática se apresenta). Essas páginas são frequentemente referidas como “incidente provocado”.

Ato 1 (páginas de 11 a 20)

Escrever o segundo conjunto de dez páginas é simplesmente seguir adiante. A regra é essa: simplesmente siga o foco da Personagem Principal. Nós – o público – aprendemos o que a Personagem Principal aprende. Você está se focando na Personagem Principal através de cada cena dessas dez páginas seguintes. É desenvolver o que foi feito no primeiro conjunto de dez páginas; ou seja, pegar a semente do que foi mostrado antes e fazê-la se desenvolver, trabalhar de forma mais densa e profunda com aquilo que foi mostrado anteriormente. E também é o pedaço perfeito para mostrar mais da Personagem, como sua vida pessoal, profissional, entre outros detalhes que mostram ao público quem sua Personagem Principal é.

Ato 1 (páginas 21 a 30)

O terceiro conjunto de dez páginas é o momento onde você cria os acontecimentos que irão gerar o Ponto de Virada 1 no final do Ato 1. Pense no Ponto de Virada 1. O que é? O que acontece? É nessas dez páginas que você desenvolverá os acontecimentos que farão o Ponto de Virada 1 acontecer, deixando uma sensação de naturalidade ao que é mostrado ao público, de forma a não dar a sensação de que o Ponto de Virada 1 acontece “do nada”. E tais acontecimentos tem que ter a ver com o que é mostrado e estabelecido nos dois primeiros conjuntos de dez páginas.

Resumindo:

10 primeiras páginas – Mostre quem, o que e como.

10 páginas seguinte – Desenvolva o que foi mostrado anteriormente e apresente melhor sua Personagem Principal, mostrando aspectos de sua personalidade e de sua realidade.

10 últimas páginas – Baseado no que foi mostrado nos dois conjuntos anteriores, mostre a semente do Ponto de Virada 1, depois a coisa se desenvolvendo até a Ponto de Virada 1 quase que explodir na cara da Personagem Principal quando o Ato 1 acaba.

ATO 1 – AS DEZ PRIMEIRAS PÁGINAS – EXEMPLO: “CHINATOWN”

Robert Towne escreveu o roteiro do filme “Chinatown”, um clássico não só do cinema, mas também da redação roteirística. O roteiro de Chinatown é tão didático que é estudado há decadas nos mais diversos cursos e seminários de roteiro ao redor do mundo.

Antes de mais nada, a estória é criação do roteirista. Porém, o resultado final (ou seja, o filme em si) é uma criação da visão que o diretor tem da estória. Você escreve. O diretor pega o que você escreveu e, com a ajuda de uma equipe imensa, torna realidade a interpretação que ele tem do que você escreveu.

Dessa maneira, um roteiro excelente pode ser transformado em um filme medíocre e o inverso também acontece com frequência. O mesmo ocorre nos quadrinhos, quando há uma estória maravilhosa e uma péssima arte ou mesmo um roteiro ruim que acaba sendo salvo (?) pela arte maravilhosa. No caso de “Chinatown”, resultou, felizmente, em dois belos trabalhos. Não dá pra saber o que é melhor, o roteiro ou o resultado final (o filme). E por que isso deve ser salientado? Muitos roteiristas profissionais classificam o roteiro de “Chinatown” como o melhor roteiro americano escrito na década de 70. Não que tenha resultado em um filme melhor do que “O Poderoso Chefão”, “Apocalipse Now” ou “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”, mas é que, tecnicamente, “Chinatown” é muito superior a praticamente tudo escrito naqueles anos. Como experiência de leitura, a estória, a dinâmica visual, o cenário, tudo é tramado de forma bastante coerente, correta e precisa de forma a criar uma sólida unidade dramática de uma estória contada com imagens.

Aparentemente, em uma primeira visualização, o filme pode soar frio e distante, entediante até. Em uma segunda visualização, nota-se que ele é diferenciado. Porém, só depois de ler o roteiro – ou melhor ainda, acompanhar o filme com o roteiro ao lado – é que se pode perceber como tudo foi escrito de forma impecável.

Antes de prosseguir, aviso aqui que durante os estudos do roteiro, ele será posto em inglês, como em seu original. Isso acontece com a intenção de não deturpar/estragar o trabalho de Towne. Vamos a ele:

1    FULL SCREEN PHOTOGRAPH
grainy but unmistakably a man and woman making love.
Photograph shakes. SOUND of a man MOANING in anguish.
The photograph is dropped, REVEALING ANOTHER, MORE
compromising one. Then another, and another. More moans.

		CURLY'S VOICE
		(crying out)
	Oh, no.

2    INT. GITTES' OFFICE

CURLY drops the photos on Gittes' desk. Curly towers
over GITTES and sweats heavily through his workman's
clothes, his breathing progressively more labored. A
drop plunks on Gittes' shiny desk top.

Gittes notes it. A fan whiffs overhead. Gittes glances
up at it. He looks cool and brisk in a white linen suit
despite the heat. Never taking his eyes off Curly, he
lights a cigarette using a lighter with a "nail" on
his desk.

Curly, with another anguished sob, turns and rams his
fist into the wall, kicking the wastebasket as he does.
He starts to sob again, slides along the wall where his
fist has left a noticeable dent and its impact has sent
the signed photos of several movie stars askew.

Curly slides on into the blinds and sinks to his knees.
He is weeping heavily now, and is in such pain that he
actually bites into the blinds.

Gittes doesn't move from his chair.

		GITTES
	All right, enough is enough --
	you can't eat the venetian
	blinds, Curly. I just had
	'em installed on Wednesday.

Curly responds slowly, rising to his feet, crying. Gittes
reaches into his desk and pulls out a shot glass, quickly
selects a cheaper bottle of bourbon from several fifths
of more expensive whiskeys.

3    Gittes pours a large shot. He shoves the glass across
his desk toward Curly.

		GITTES
	-- Down the hatch.

Curly stares dumbly at it. Then picks it up, and drains
it. He sinks back into the chair opposite Gittes, begins
to cry quietly.

		CURLY
		(drinking, relaxing
		 a little)
	She's just no good.

		GITTES
	What can I tell you, Kid?
	You're right. When you're
	right, you're right, and
	you're right.

		CURLY
	-- Ain't worth thinking about.

Gittes leaves the bottle with Curly.

		GITTES
	You're absolutely right, I
	wouldn't give her another
	thought.

		CURLY
		(pouring himself)
	You know, you're okay, Mr. Gittes.
	I know it's your job, but you're
	okay.

		GITTES
		(settling back,
		 breathing a little
		 easier)
	Thanks, Curly. Call me Jake.

		CURLY
	Thanks. You know something,
	Jake?

		GITTES
	What's that, Curly?

		CURLY
	I think I'll kill her.

4    INT. DUFFY & WALSH'S OFFICE
noticeably less plush than Gitte's. A well-groomed,
dark-haired WOMAN sits nervously between their two desks,
fiddling with the veil on her pillbox hat.

		WOMAN
	-- I was hoping Mr. Gittes could
	see to this personally --

		WALSH
		(almost the manner
		 of someone
		 comforting the
		 bereaved)
	-- If you'll allow us to complete
	our preliminary questioning, by
	then he'll be free.

There is the SOUND of ANOTHER MOAN coming from Gittes'
Office -- something made of glass shatters. The Woman
grows more edgy.

5    INT. GITTES' OFFICE - GITTES & CURLY
Gittes and Curly stand in front of the desk, Gittes
staring contemptuously at the heavy breathing hulk
towering over him. Gittes takes a handkerchief and
wipes away the plunk of perspiration on his desk.

		CURLY
		(crying)
	They don't kill a guy for that.

		GITTES
	Oh they don't?

		CURLY
	Not for your wife. That's the
	unwritten law.

6    Gittes pounds the photos on the desk, shouting;

		GITTES
	I'll tell you the unwritten law,
	you dumb son of a bitch, you
	gotta be rich to kill somebody,
	anybody and get away with it.
	You think you got that kind
	of dough, you think you got
	that kind of class?

Curly shrinks back a little.

		CURLY

	... No...

		GITTES
	You bet your ass you don't. You
	can't even pay me off.

This seems to upset Curly even more.

		CURLY
	I'll pay the rest next trip --
	we only caught sixty ton of
	skipjack around San Benedict.
	We hit a chubasco, they don't
	pay you for skipjack the way
	they do for tuna or albacore --

		GITTES
	(easing him out of
	 his office)
	Forget it. I only mention it to
	illustrate a point...

7    INT. OFFICE RECEPTION

He's now walking him past SOPHIE who pointedly averts her
gaze. He opens the door where on the pebbled glass can
be read: J. J. GITTES and Associates - DISCREET
INVESTIGATION.

		GITTES
	I don't want your last dime.

He throws an arm around Curly and flashes a dazzling
smile.

		GITTES
		(continuing)
	What kind of guy do you
	think I am?

		CURLY
	Thanks, Mr. Gittes.

		GITTES
	Call me Jake. Careful driving
	home, Curly.

He shuts the door on him and the smile disappears.

8    He shakes his head, starting to swear under his breath.

		SOPHIE
	-- A Mrs. Mulwray is waiting for
	you, with Mr. Walsh and Mr. Duffy.

Gittes nods, walks on in.

9    INT. DUFFY AND WALSH'S OFFICE

Walsh rises when Gittes enters.

		WALSH
	Mrs. Mulwray, may I present Mr.
	Gittes?

Gittes walks over to her and again flashes a warm,
sympathetic smile.

		GITTES
	How do you do, Mrs. Mulwray?

		MRS. MULWRAY
	Mr. Gittes...

		GITTES
	Now, Mrs. Mulwray, what seems to
	be the problem?

She holds her breath. The revelation isn't easy for her.

		MRS. MULWRAY
	My husband, I believe, is seeing
	another woman.

Gittes looks mildly shocked. He turns for confirmation
to his two partners.

		GITTES
		(gravely)
	No, really?

		MRS. MULWRAY
	I'm afraid so.

		GITTES
	I am sorry.

10   Gittes pulls up a chair sitting next to Mrs. Mulwray --
between Duffy and Walsh. Duffy cracks his gum.

Gittes gives him an irritated glance.
Duffy stops chewing.

		MRS. MULWRAY
	Can't we talk about this alone,
	Mr. Gittes?

		GITTES
	I'm afraid not, Mrs. Mulwray.
	These men are my operatives and
	at some point they're going to
	assist me. I can't do everything
	myself.

		MRS. MULWRAY
	Of course not.

		GITTES
	Now -- what makes you certain he
	is involved with someone?

Mrs. Mulwray hesitates. She seems uncommonly nervous
at the question.

		MRS. MULWRAY
	-- a wife can tell.

Gittes sighs.

		GITTES
	Mrs. Mulwray, do you love your
	husband?

		MRS. MULWRAY
		(shocked)
	... Yes of course.

		GITTES
		(deliberately)
	Then go home and forget about it.

		MRS. MULWRAY
	-- but...

		GITTES
		(staring intently at
		 her)
	I'm sure he loves you, too. You
	know the expression, let sleeping
	dogs lie? You're better off not
	knowing.

		MRS. MULWRAY
		(with some real
		 anxiety)
	But I have to know.

Her intensity is genuine. Gittes looks to his two
partners.

		GITTES
	All right, what's your husband's
	first name?

		MRS. MULWRAY
	Hollis. Hollis Mulwray.

		GITTES
		(visibly surprised)
	-- Water and Power?

Mrs. Mulwray nods, almost shyly. Gittes is now casually
but carefully checking out the detailing of Mrs.
Mulwray's dress -- her handbag, shoes, etc.

		MRS. MULWRAY
	-- he's the Chief Engineer.

		DUFFY
		(a little eagerly)
	-- Chief Engineer?

11   Gittes' glance tells Duffy Gittes wants to do the
questioning. Mrs. Mulwray nods.

		GITTES
		(confidentially)
	This type of investigation can
	be hard on your pocketbook, Mrs.
	Mulwray. It takes time.

		MRS. MULWRAY
	Money doesn't matter to me, Mr.
	Gittes.

Gittes sighs.

		GITTES
	Very well. We'll see what we
	can do.

12   EXT. CITY HALL - MORNING

already shimmering with heat.

A drunk blows his nose with his fingers into the fountain
at the foot of the steps.

Gittes, impeccably dressed, passes the drunk on the way
up the stairs.

13   INT. COUNCIL CHAMBERS

Former Mayor SAM BAGBY is speaking. Behind him is a huge
map, with overleafs and bold lettering:

     "PROPOSED ALTO VALLEJO DAM AND RESERVOIR"

Some of the councilmen are reading funny papers and
gossip columns while Bagby is speaking.

		BAGBY
	-- Gentlemen, today you can walk
	out that door, turn right, hop on
	a streetcar and in twenty-five
	minutes end up smack in the Pacific
	Ocean. Now you can swim in it, you
	can fish in it, you can sail in
	it - but you can't drink it, you
	can't water your lawns with it,
	you can't irrigate an orange grove
	with it. Remember -- we live next
	door to the ocean but we also live
	on the edge of the desert. Los
	Angeles is a desert community.
	Beneath this building, beneath
	every street there's a desert.
	Without water the dust will rise
	up and cover us as though we'd
	never existed!
		(pausing, letting
		 the implication
		 sink in)

14   CLOSE - GITTES

sitting next to some grubby farmers, bored. He yawns --
edges away from one of the dirtier farmers.

		BAGBY(O.S.)
		(continuing)
	The Alto Vallejo can save us from
	that, and I respectfully suggest
	that eight and a half million
	dollars is a fair price to pay to
	keep the desert from our streets
	-- and not on top of them.

15   AUDIENCE - COUNCIL CHAMBERS

An amalgam of farmers, businessmen, and city employees
have been listening with keen interest. A couple of the
farmers applaud. Somebody shooshes them.

16   COUNCIL COMMITTEE

in a whispered conference.

		COUNCILMAN
		(acknowledging Bagby)
	-- Mayor Bagby... let's hear from
	the departments again -- I suppose
	we better take Water and Power
	first. Mr. Mulwray.

17   REACTION - GITTES

looking up with interest from his racing form.

18   MULWRAY

walks to the huge map with overleafs. He is a slender
man in his sixties, who wears glasses and moves with
surprising fluidity. He turns to a smaller, younger
man, and nods. The man turns the overleaf on the map.

		MULWRAY
	In case you've forgotten, gentlemen,
	over five hundred lives were lost
	when the Van der Lip Dam gave way
	-- core samples have shown that
	beneath this bedrock is shale
	similar to the permeable shale
	in the Van der Lip disaster.
	It couldn't withstand that kind
	of pressure there.
		(referring to a new
		 overleaf)
	Now you propose yet another dirt
	banked terminus dam with slopes
	of two and one half to one, one
	hundred twelve feet high and a
	twelve thousand acre water surface.
	Well, it won't hold. I won't
	build it. It's that simple -- I
	am not making that kind of mistake
	twice. Thank you, gentlemen.

Mulwray leaves the overleaf board and sits down. Suddenly
there are some whoops and hollers from the rear of the
chambers and a red-faced FARMER drives in several
scrawny, bleating sheep. Naturally, they cause
a commotion.

		COUNCIL PRESIDENT
		(shouting to farmer)
	What in the hell do you think you're
	doing?
		(as the sheep bleat
		 down the aisles
		 toward the Council)
	Get those goddam things out of here!

		FARMER
		(right back)
	Tell me where to take them! You don't
	have an answer for that so quick, do
	you?

19   Bailiffs and sergeants-at-arms respond to the
imprecations of the Council and attempt to capture
the sheep and the farmers, having to restrain one who
looks like he's going to bodily attack Mulwray.

		FARMER
		(through above, to
		 Mulwray)
	-- You steal the water from the
	valley, ruin the grazing, starve
	my livestock -- who's paying you
	to do that, .Mr. Mulwray, that's
	what I want to know!

Vamos à análise: a Personagem Principal, Jake Gittes (Jack Nicholson) é apresentado em seu escritório, mostrando fotografias da mulher de um cliente, Curly, sendo infiel. Descobrimos coisas sobre Gittes. Na Cena 2, por exemplo, vemos que ele parece “refrescado e animado num terno de linho branco, apesar do calor”. Ele é mostrado como um homem meticuloso que usa “seu lenço para limpar a gota de suor sobre sua mesa”. Quando ele sobe as escadas da prefeitura, algumas páginas adiante, ele está “impecavelmente vestido”. Essas descrições visuais transmitem traços de caráter que refletem sua personalidade. Note como Gittes não é descrito fisicamente. Ele não é alto, baixo, loiro, gordo ou qualquer outra coisa. Através de seus atos e da descrição física sutil, ele parece um cara legal. “Não quero seu último tostão”, ele diz a Curly. “Que tipo de cara você pensa que eu sou?”, completa ele. Entretanto, ele oferece a Curly uma “garrafa de Bourbon barato, entre as várias garrafinhas de uísque mais caro”. Ele é vulgar, apesar de exalar um certo charme e sofisticação. É o tipo de homem que usa um padrão em suas camisas, tem lenços de seda e cuida frequentemente de seus sapatos e seus cabelos.

Na Cena 7, Towne revela visualmente a dramaticidade da estória nas indicações de direção: “a porta de vidro fosco em que se lê J.J. Gittes – INVESTIGAÇÃO DISCRETA”; ou seja, Gittes é um detetive particular especializado em divórcios ou “roupa suja de outras pessoas”, como uma outra personagem irá descrevê-lo mais pra frente durante o filme. Em um outro pedaço do roteiro, descobrimos que ele é um ex-policial, que acabou tendo um sentimento ruim em relação aos tiras depois que saiu da corporação. O hoje ex-policial, quando conversa com a Sra. Mulwray “confere casualmente os detalhes das roupas da Sra. Mulwray – sua bolsa, seus sapatos, etc”. Esse é seu trabalho e ele é muito bom no que faz.

Mais tarde, quando Gittes fotografa a mulher com quem o Sr. Mulwray supostamente está tendo um caso, até onde sabe, seu serviço está encerrado. No dia seguinte, ele fica surpreso ao ver sua foto estampada na primeira página do jornal, declarando que o chefe do Departamento de Água e Energia da cidade foi flagrado em um ninho de amor. Ele não sabe como suas fotografias foram parar no jornal. Quando retorna ao escritório, fica ainda mais surpreso quando dá de cara com a verdadeira Sra. Mulwray (Fay Dunaway), que ameaça processá-lo. Quando se conhecem é o Ponto de Virada 1. Como as fotos dele foram parar lá? Quem está armando pra cima dele? As perguntas criadas com o Ponto de Virada 1 tem origem nas dez primeiras páginas, quando Gittes é contratado pela falsa Sra. Mulwray para investigar um suposto caso de infidelidade. O nome dele e sua reputação como detetive está em jogo. Ele precisa descobrir quem fez isso e por que.

A premissa dramática “meu marido, eu acho, está saindo com outra mulher” – estabelece a direção do roteiro. E “direção” é uma linha de desenvolvimento.

Gittes aceita o trabalho e vai até a prefeitura dar uma olhada em Hollis Mulwray. Nas câmaras do conselho ocorre uma discussão sobre o que fazer a respeito da proposta para o dique e reservatório de Alto Vallejo, região de Los Angeles. Note como o tempo todo é mostrado que a cidade sofre de falta de água em uma época de calor infernal. Mulwray, não podemos esquecer, é quem lida com o Departamento de Água e Energia da cidade.

Segundo Towne, a idéia por trás de “Chinatown” é a do ponto de vista de que “Alguns crimes são punidos porque podem ser punidos. Se você mata ou violenta alguém, você será detido e posto na cadeia. Mas crimes contra uma comunidade inteira não podem ser punidos, então você termina por premiá-los. Vocês sabem, aquelas pessoas que tem seus nomes em placas de ruas e praças. Você é poderoso, então você escapa. Este é o ponto de vista básico da estória”.

Na próxima aula continuo analisando o Ato 1 de “Chinatown”, com base nas dez primeiras páginas. Depois de analisar “Chinatown”, nas aulas seguintes veremos como isso tudo funciona com quadrinhos quando eu analisar uma obra (surpresa, não me perguntem) de Grant Morrison.

Entrevista com a equipe criativa de Anarquia no Soc! Tum! Pow!

Postado em Uncategorized em janeiro 9, 2010 por zaphq

Foi publicada na noite de ontem a primeira entrevista com a equipe criativa de Anarquia, formada pelos roteiristas Emílio Baraçal e Carlos Eduardo Corrales, junto de sua artista, Cynthia França; no blog sobre quadrinhos Soc! Tum! Pow!. Eis o link:

Entrevista no Soc! Tum! Pow!

Aproveite a entrevista e também conheça mais o trabalho de Gustavo Vícola, mantenedor do blog.

Aula de Roteiro 06

Postado em Uncategorized em janeiro 4, 2010 por zaphq

Agora você conhece a parte básica da estrutura, do paradigma. Está na hora de começar a descobri-la profundamente.

DISSECANDO O ATO 1

Por incrível que pareça, a parte mais importante em um roteiro/livro não é o fim. É o começo.

No caso de um roteiro de cinema, mas especificamente, as dez primeiras páginas. Imagine que temos um filme cujo Ato 1 preenche 30 páginas/minutos. Nós dividimos o Ato 1 em três partes iguais. Dessas, a mais importante é a primeira parte.

A primeira razão pra isso é puramente prática: produtores tem pilhas e pilhas de roteiros para ler. Dezenas, normalmente. Centenas, às vezes. Imagine ler e analisar tudo isso. É muita coisa.

Dessa forma, você deve ganhar a atenção do produtor nas dez primeiras páginas. Eles só lêem as dez primeiras páginas. E se nelas você ganha a atenção do produtor, com certeza o resto do seu roteiro é bom de ser lido e, provavelmente, aprovado para produção. Produtores, devido à prática que possuem em ler roteiros, já viram de tudo. Eles conhecem todos os tipos de estórias, idéias, argumentos. E se você apresenta algo diferente e instigante, já é meio caminho andado para uma reunião ser marcada entre você e ele.

A segunda razão pela qual as dez primeiras páginas são as mais importantes é porque é esse tempo (dez minutos) que as pessoas geralmente levam pra perceber – na grande maioria das vezes, de forma inconsciente – se estão gostando ou não de um filme. Isso já foi alvo de estudo de produtores, diretores e roteiristas. Se duvida, vá assistir a um filme que nunca viu, coloque o despertador pra tocar dali a dez minutos e quando ouvir o sinal, pause a película. E pense sobre o que está sentindo em relação ao que está vendo.

Mas se não está satisfeito com a resposta, aí vai algo mais concreto ainda: toda estória faz uma promessa ao leitor/espectador. Atualmente, duas promessas, uma emocional e outra, intelectual. Com base nisso, a função de uma estória é nos fazer sentir e pensar.

A promessa emocional é: “Leia/assista isso e você será entretido ou espantado ou aterrorizado ou fragilizado ou entristecido ou se sentirá nostálgico, mas de qualquer maneira, será absorvido”.

E há três versões para a promessa intelectual:

1 – “Leia/assista isso e você verá o mundo com um diferente ponto de vista”.

2- “Leia/assista isso e você terá confirmado algo em que acredita sobre este mundo”.

3 – “Leia/assista isso e você aprenderá sobre um mundo diferente e mais interessante do que o real”.

No tempo que uma pessoa inconscientemente leva para perceber se curte ou não seu filme, ela percebe implicitamente o que está prometendo.

Um meio de estória satisfatório é aquele que entrega algo de diferente, inesperado e interessante. Um fim de estória satisfatório é aquele que cumpre a promessa, promove novas idéias ou uma confortável confirmação ou uma viciante felicidade.

Mesmo quando é surpreendente de alguma maneira, o fim é inevitável porque preenche a promessa da estória. E isso é importante porque um fim bem feito completa a promessa feita no começo do roteiro. Em outras palavras, o meio e o fim são muito dependentes do começo.

Em sua cena de abertura, o foco é manter seu público interessado. Tem que acontecer uma primeira cena forte, interessante, diferente ou inesperada. Há quatro elementos para que consiga criar algo assim nos seus dez minutos: personagem, conflito, especificidade e credibilidade.

ATO 1 – OS DEZ PRIMEIROS MINUTOS – PERSONAGEM

Sua cena de abertura deve ter uma personagem que precisa chamar a atenção do público e fazer com que ele continue interessado.

Personagem é alguém que faz, não alguém que fala. Caso fosse alguém que falasse, teríamos algumas personagens em volta de uma mesa – ou qualquer outro lugar que possa imaginar – apenas falando. Alguns roteiristas são capazes de prender a atenção das pessoas apenas com algumas personagens falando, mas são raríssimos os que desenvolvem alguma habilidade narrativa com isso.

E para entender melhor uma personagem, é preciso entender o conceito de “ação”, roteiristicamente falando. Em um roteiro, “ação” não é sinônimo de tiros, lutas, explosões e afins. “Ação” é um termo para qualquer ato que uma personagem esteja fazendo. Um preso escrevendo uma carta para sua família em uma cela é uma ação. Escrever a carta é o ato que ele desempenha. Um ciclista que está tentando colocar de volta a corrente de sua bicicleta, que se soltou, é uma ação.

As ações definem uma personagem.

Um exemplo disso ocorre na vida real. Quantas pessoas que você conhece que na frente dos outros falam uma coisa, mas por trás fazem outra? Tomando esse exemplo, mais uma vez, personagem é aquela que faz e não aquela que fala. A ação mostra a real intenção e caráter de alguém.

A ação é, portanto, a matéria básica do roteiro.

E podemos definir a ação como todo e qualquer movimento – não necessariamente físico – que é fruto de uma vontade e que visa um determinado objetivo. Nem todo movimento realizado é uma ação. Para que o seja, é preciso que esse movimento resulte no alcançar de um objetivo conhecido pelo sujeito. Se você vai até a cozinha, enche um copo com água gelada e bebe, seu objetivo foi matar a sede através do movimento de ir até a cozinha, abrir a geladeira, pegar a garrafa, pegar o copo, encher, tomar e mandar pra dentro. Houve ações.

A ação humana tem uma raiz imaterial. Origina-se naquilo que há de mais alto e nobre no homem, no que tradicionalmente denomina-se de “espírito” – vontade e inteligência. A vontade quer alcançar um bem que é conhecido pela inteligência. Notemos que esse bem é percebido pelo sujeito como algo que lhe falta, algo que, se possuído, lhe trará certa felicidade.

Sendo assim, a ação tem um caráter transcendente. Não é realizada por si mesma, mas como um meio que visa alcançar determinado fim. Se não considerarmos essa transcendência, a ação torna-se algo incompreensível. Com essa lógica, quando uma personagem está em cena, seja personagem principal ou não, deve haver um motivo/razão para que esteja ali. A personagem que estar fazendo alguma coisa e com um motivo/razão para tal ato. Personagens não podem ficar “flutuantes”, ou seja, fazendo nada.

Além disso, por que as ações das personagens são tão importantes? Porque são as ações que fazem as coisas aconteceram em uma estória. São as ações que movem a estória pra frente.

Um filme, livro, quadrinho, etc… é comportamento. A personagem de uma estória deve ser ativa e provocar acontecimentos ou criar ações que em um futuro breve provocarão acontecimentos. É a básica lei da física de ação e reação.

As mais bem sucedidas cenas de abertura dão ao público uma genuína personagem com que ele pode se importar porque as estórias são sobre seres humanos. É através das ações de uma personagem que sabemos quem ela é, esse é o modo como a conhecemos. Algumas estórias, entretanto, são sobre alguma coisa.

Tome o exemplo de “O Senhor dos Anéis”. A personagem principal não é Frodo, Gandalf, Aragorn ou mesmo Gollum. É o Um Anel.

Tire o Um Anel da estória e você não tem estória. As ações de qualquer personagem estão ligadas direta ou indiretamente à mera presença e às tentações causadas pelo Um Anel.

Ou mesmo Cidadão Kane. Charles Foster Kane não aparece fisicamente até o final do Ato 1, sendo praticamente o ponto de virada de Cidadão Kane quando ele dá as caras. O espectador o conhece através das conversas entre outras personagens, em notícias de rádio e jornais e outros meios que não a presença física da personagem. E mesmo assim, sabemos de suas ações, o que quer e o que está acontecendo com ele. É brilhante porque ele está lá e não está lá.

ATO 1 – OS DEZ PRIMEIROS MINUTOS – CONFLITO

Conflito significa “em oposição a”. Relembrando algo que vimos anteriormente: “Todo drama é conflito. Sem conflito não há personagem; sem personagem não há ação, sem ação não há estória e sem estória não há roteiro”. Creio que a essa altura do campeonato, essa frase faz cada vez mais sentido, certo?

Assim como ação, um conflito não significa brigas, chutes e bombardeios. Conflito é um recurso dramático que estabelece sobre o que é sua estória. Um conflito pode ser personagem vs personagem, personagem vs natureza, personagem vs sociedade, entre muitas outras possibilidades.

Em algumas estórias, conflito pode ser algo tão intrínseco que só exista dentro da cabeça da personagem principal; de modo que as demais personagens não tenham noção dos problemas que a personagem principal esteja enfrentando.

Bons jeitos – e você vai descobrir mais conforme se tornar mais experiente – é criar uma situação para o espectador através da personagem principal  de modo que seja algo inesperado ou uma experiência perturbadora ou algo está para mudar.

E é com essa característica – a do conflito – que você deve mostrar ao público o que sua personagem principal precisa buscar/alcançar. Ou seja, você mostra a necessidade dramática de sua personagem principal.

Isso tudo é conflito.

ATO 1 – OS DEZ PRIMEIROS MINUTOS – ESPECIFICIDADE

Começos eficazes usam de pequenos detalhes. Podem ser detalhes em diálogos ou em cenários ou em pensamentos das personagens ou qualquer outra coisa. O uso efetivos de detalhes, mais do que qualquer outro fator, é o que distingue verdadeiros clássicos de uma boa estória. Os detalhes certos dão ao escritor/roteirista três vantagens.

Primeiro, os detalhes corretos ancoram sua estória em uma realidade concreta. Não é algo como “Susan é uma amante dos animais” e sim algo como “Toda noite Susan alimenta seu gracioso labrador com o que há de melhor para a raça dele na melhor pet shop da região”. Um animal específico, uma parte específica do dia, uma ação específica e outros detalhes. Isso tudo nos mostra – e não nos conta – que Susan ama animais.

Segundo, detalhes fazem sua cena inicial ficar diferente de outras centenas que sejam parecidas. No primeiro parágrafo você ainda não tem tempo para desenvolver detalhes profundos das personagens ou nuances do assunto de sua estória. Sua estória começa, como vamos dizer, em uma sala de jantar da mesma forma que outros dez roteiros que o produtor leu nessa semana – ou pior, no dia. Mas você terá um diferencial se souber como trabalhar com os detalhes. Os detalhes tem que ser frescos, originais, individuais, sem parecerem bizarros. Isso revela que o roteirista tem um olhar meticuloso e único. Produtores não querem ficar revendo mais do mesmo.

Por último, detalhes convencem um produtor de que você sabe sobre o que está falando. Uma estória que começa em um jantar não precisa ser em uma casa, mas pode ser em um restaurante. Algo como: “Então, estou enchendo os saleiros no final da noite e ouço o rádio novo que Charlie instalou na parede atrás do balcão, próximo à entrada para a cozinha. ´Unforgetable`, de Nat King Cole quase me faz esquecer de que meu avental está um trapo e preciso pedir um novo para o chefe”.

Esses detalhes vieram de uma roteirista que foi garçonete. Ela sentia o ambiente, embora não trabalhasse mais com isso.  Quando seus detalhes são acurados dessa forma, o produtor inconscientemente lhe dá o prêmio de credibilidade. Se você soa como alguém que conhece bem restaurantes, você poderá muito bem contar uma estória sobre um deles. Produtores notam esse tipo de coisa.

Inversamente, detalhes específicos errados podem destruir sua credibilidade logo no primeiro parágrafo. Um exemplo é este:

“O caminhoneiro loiro tinha apenas acabado de preencher o tanque de seu veículo com diesel semi-regular quando se dirigia para a bomba”.

Soa banal, ridículo, errado e incoerente.

ATO 1 – OS DEZ PRIMEIROS MINUTOS – CREDIBILIDADE

Entretanto, até os mais acurados detalhes podem acabar com você se sua escrita carecer de credibilidade. Esse é um conceito não muito fácil de estabelecer. Credibilidade está relacionado à confiança.

A boa escrita pode convencer o produtor que você pode lidar com o seu idioma nativo de forma segura. Esse senso de segurança ajuda o produtor a suspender a desconfiança no material que tem em mãos e entrar de forma pesada no que está propondo em seu roteiro.

“Se esse cara pode escrever de forma suave e clara, então pode contar uma boa estória, de uma boa maneira, ou me fazer sentir e pensar em algo além de minhas experiências de vida normais. Vou ler” – é assim que provavelmente você o fará pensar.

Ainda assim, credibilidade na escrita não faz uma estória ser bem sucedida por si só. Todo produtor vê centenas de roteiros que tem uma escrita leve e interessante, mas são confusos ou cheios de clichê ou implausíveis – ou quaisquer outras características negativas. A falta de credibilidade pode ser fatal.

Não é raro o caso de roteiristas iniciantes que possuem uma estória envolvente, personagens instigantes, mas com uma escrita tão truncada que o produtor carimbou um “NÃO” na capa do roteiro.

Por fim, quero deixar claro que quando escrevo “protudor”, também serve editor, caso seu objetivo seja os quadrinhos ou a literatura. Na próxima aula continuaremos os detalhes dos dez primeiros minutos de um roteiro cinematográfico e, mais para frente, como isso é aplicado em diferentes mídias.

Entrevistas em tempo real

Postado em Uncategorized em dezembro 18, 2009 por zaphq

Eis que surge – talvez – mais uma nova onde na internet, inspirada pelo Twitter. É o Formspring, cuja home é:

Formspring

Trata-se de um, site que, após fazer um cadastro, qualquer pessoa pode lhe fazer perguntas, anonimamente ou não. O editor-chefe e roteirista Emílio Baraçal já tem o seu perfil, que pode ser visto clicando aqui.

Dessa forma, estejam livres para fazer qualquer pergunta a ele sobre os projetos do Zap!HQ. As perguntas e respostas serão automaticamente publicadas também no Twitter de Emílio Baraçal.

Aula de Roteiro 05

Postado em Uncategorized em dezembro 18, 2009 por zaphq

COLOCANDO O PARADIGMA EM PRÁTICA – ANÁLISE

Relembrando a Apresentação (Ato 1): “Alguém, em algum lugar, fazendo (ou querendo fazer) alguma coisa”.

Usando o filme Matrix (porque só o primeiro importa, opinião pessoal) e tendo a frase que define o Ato 1 em mente, temos: “Thomas Anderson, funcionário de uma grande empresa de softawares e hacker nas horas vagas que atende pela alcunha de Neo (alguém), em uma cidade grande dos dias de hoje (em algum lugar), querendo saber o que é a Matrix e por que um suposto terrorista internacional (o querendo fazer alguma coisa) conhecido como Morpheus está atrás dele”.

Ponto de Virada 1: “Evento na estória que muda seu rumo, atrapalhando os objetivos da personagem principal, fazendo com que tenha que resolvê-los de uma maneira ou de outra antes de conseguir o que quer”

Em Matrix, seria: “Neo decide saber a verdade, tomando uma das pílulas que Morpheus lhe mostra”.

Essa cena é o Ponto de Virada 1. Tudo de estranho está acontecendo com Neo. Ele se vê no meio de uma conspiração e fica em dúvida se deve seguir em frente ou cair fora o mais rápido que pode. Várias coisas são apresentadas a ele, através dos Agentes e através de seu encontro com Morpheus. Ele precisa pesar o pouco que sabe e tomar alguma decisão. “Personagem é aquele que faz, não aquele que fala” – falarei sobre essa frase quando chegar as aulas de criação de personagens.

Se Neo decide cair fora, não tem estória. Ele não fica sabendo de nada. Se ele decide – e é o que acontece – saber a verdade, ele entrará em um mundo que jamais imaginou, tendo que arcar com responsabilidades que ele nem sequer sabe que existem.

Ato 2: Entre os Pontos de Virada 1 e 2, temos a Confrontação (Ato 2), que é onde a personagem principal enfrentará todos os obstáculos decorrentes do que ocorre no Ponto de Virada 1.

No caso de Matrix, Neo imediatamente começa a aprender sobre o verdadeiro mundo real, o que é a Matrix, a situação da Humanidade, passa por um treinamento, consulta-se com a Oráculo em busca de iluminação, entre outros detalhes que ele precisa superar/tomar conhecimento para resolver o problema que conseguiu.

Ponto de Virada 2: “Evento na estória que muda seu rumo mais uma vez, sendo que agora ajuda  – ou não, em casos de finais tristes – a personagem principal a atingir seus objetivos, resolvendo – ou não – todos os seus problemas”

Com Morpheus nas mãos dos Agentes, Neo tem que decidir se fica à salvo na nave Nabucodonosor ou se entra na Matrix para uma impossível tentativa de resgate. Morpheus conhece a senha para entrar em Sião, a última cidade humana. Ele não resistirá muito tempo na mãos dos Agentes e suas cruéis técnicas de interrogatório. O tempo urge. Ele precisa tomar alguma decisão. Ele precisa fazer algo. E ele faz: escolhe salvar o amigo, que é mais importante que ele, já que a Oráculo tinha lhe dito que ele não era O Escolhido e que Morpheus é o homem que achará o verdadeiro Escolhido – além de ter a já comentada senha de Sião, claro.

Resolução: É o pedaço do roteiro que mostra as consequências de todas as decisões – boas ou ruins – tomadas pela personagem principal; fechando todas as pontas soltas.

Devido à decisão tomada no Ponto de Virada 2, Neo acaba tendo que passar por obstáculos que ninguém jamais tinha enfrentado. Sua determinação em salvar o amigo é tão grande que ele precisa entender definitivamente as leis da Matrix de forma a ter alguma chance, mesmo que remota, contra os Agentes. E ele consegue esse entendimento a ponto de todos perceberem que ele é realmente O Escolhido. Ele salva Morpheus, derrota os Agentes e manda um recadinho para a Matrix.

FIM

(ou deveria, já que o sucesso subiu á cabeça dos irmãos Wachowski, se empolgaram, esqueceram do roteiro e fizeram Matrix Reloaded e Matrix Revolutions)

Observe como o esquema do Paradigma é montado na imagem abaixo seguindo a estrutura de Matrix. Basta apenas clicar nela:

Difícil? Nem tanto, não é?

Exercício proposto: assista a filmes. Leia quadrinhos e livros. Assista suas séries preferidas. Monte a linha do tempo e tente identificar a estrutura. Quem é a personagem principal e por que? O que está tentando realizar? Quais são os Pontos de Virada? Como acaba? Qual é a grande transformação pelo qual as personagens passam? Responda essas e outras perguntas – elas sempre surgem – e você terá uma idéia de como tudo é estruturado antes que qualquer cena seja descrita, qualquer diálogo seja posto na boca das personagens.

Vejo vocês na próxima.

Aula de Roteiro 04

Postado em Uncategorized em dezembro 7, 2009 por zaphq

RECAPITULAÇÃO DA ESTRUTURA DO PARADIGMA

Como vimos na aula anterior, o esquema dos três atos divide um espaço imaginário, desenhando em uma espécie de “linha do tempo”, de forma a nos dar três partes, sendo duas de 25% (Atos 1 e 3) e a outra, de 25% (Ato 2). Só para relembrar, com outros exemplos, a primeira coisa que você deve saber sobre sua estória é: que tamanho ela tem? É um desenho animado de 20 minutos? É um curta-metragem de 12 minutos? É uma HQ de 10 páginas? Quanto tempo você tem pra contar sua estória?

Com esses exemplos em mente, ficaria assim:

No exemplo 01, vemos um esquema de roteiro de um desenho animado de 20 minutos. O Ponto de Virada 1 aconteceria com 2 minutos de roteiro e o Ponto de Virada 2 ocorreria com 15 minutos de roteiro. No exemplo 02, vemos o exemplo de um curta-metragem de 12 minutos e, em seguida, uma HQ de 10 páginas. O esquema não muda, não importa a mídia e o tamanho da estória.

Adicionando, em um roteiro haverá um e APENAS UM personagem principal. Isso ocorre porque a estória é contada do ponto de vista da personagem principal. São as decisões dessa personagem que movem a estória pra frente. São as ações dessa personagem que fazem o roteiro evoluir. Os outros personagens são reativos.

Além do mais, para aqueles que querem ainda assim colocar mais de uma personagem principal, imagina ter que criar Apresentação, os dois Pontos de Virada e Resolução pra cada um…

Outra dúvida pertinente: vamos supor que você está escrevendo Amazing Spider-Man. Ok, não é porque tem o nome do Homem-Aranha na capa da revista que em todo capítulo/história, a personagem principal é ele. É apenas o nome da revista. Para contar sua estória, você pode fazer com que a personagem principal seja qualquer um. Tem capítulos que a personagem principal é a Tia May. Tem outros que é a Mary Jane. Já em outros, é o Jameson. Na maioria das vezes, é o Peter. Porém, isso nem pode e nem deve ser uma regra imutável. Certa vez, John Byrne fez uma estória em que a personagem principal de uma HQ do Quarteto Fantástico era o próprio Edifício Baxter. O Ardiloso tentava invadir o prédio e tentava passar pelas defesas do lugar. Ao invés de contar pelo ponto de vista do vilão, ele deu um jeito maravilhoso e inusitado de usar o prédio como personagem principal.

E para os que duvidam que um objeto não pode ser a personagem principal, pense em O Senhor dos Anéis. A personagem principal não é Frodo, Gandalf, Aragorn e nem mesmo Gollum. É o Um Anel. Tira ele da estória… tem estória? Não.

É o Um Anel que mexe com as pessoas e seres. É devido a ele que todo mundo está em guerra. É ele que influencia o rumo de todos.

A ESTRUTURA DENTRO DA ESTRUTURA

Mas e estórias que não acabam de uma vez só? E uma HQ que não é só uma edição, mas sim, várias? E uma minissérie de TV? E um seriado cujos capítulos sempre tem continuação? Como faz?

Existe a estrutura dentro da estrutura.

Primeiro, deve-se ver tudo como uma coisa só. A estória é grande, de modo que foi dividida em partes, que são os capítulos ou episódios. A minissérie ou saga possui um paradigma principal, com seus Pontos de Virada e demais características. Porém, há o que chamamos de “estrutura dentro da estrutura”.

A “estrutura dentro da estrutura” nada mais é do que a elaboração de um paradigma para cada capítulo/episódio; ou seja, cada parte da estória tem uma estrutura menor, que colabora – mas não substitui ou suplanta – a estrutura principal.

Para ficar mais fácil o entendimento, vamos pensar em uma minissérie de 12 episódios. Obedecendo ao tamanho de cada Ato, eu tenho então 3 episódios para a Apresentação, 3 episódios para a Resolução e 6 episódios para a Confrontação. O Ponto de Virada 1 ocorre no final – última sequência – do episódio 03 e o Ponto de Virada 2 ocorre no final – última sequência – do episódio 9.

Essa seria a estrutura principal da minissérie. Entretanto, cada capítulo teria sua estrutura fechada, com um Ponto de Virada extra (que muitos roteiristas chamam de “Gancho Final”) no final de cada episódio, dando a pista de como será a Apresentação do episódio seguinte e prendendo o público à minissérie.

Veja o seguinte exemplo, clicando na imagem:

Com esse esquema, após acostumar-se, fica quase impossível se perder na minissérie, seriado ou HQ de vários capítulos que queria contar. A não ser, claro, que tome muito chá de cogumelo, como os roteiristas de Lost…