Aula de Roteiro 10

Eis que volto para a análise da 2ª parte do arco “Nova Ordem Mundial”, da Liga da Justiça de Grant Morrison. O nome do capítulo é “O Dia Em Que A Terra Parou”, fazendo alusão ao clássico da ficção científica de 1952, dirigido por Robert Wise.

Ato I

O capítulo começa com uma transmissão jornalística sobre o quartel do Hyperclan, que surgiu do nada na Antártida. Através do repórter ficamos sabendo das últimas novidades dos alienígenas, com destaque para uma promessa que Protex fez – um milagre, na verdade – para aquele dia. Ou seja, ele pretende realizar algo e não sabemos o que é. Morrison apenas em uma página apresenta o “alguém, em algum lugar, querendo – ou fazendo – alguma coisa”.

No Deserto de Góbi, na Mongólia, outra construção alienígena surge. E no Oceano Pacífico, na área do Atol de Midway também. Tudo transmitido pelos telejornais.

No QG da Antártida chegam Protex, Primaid e E-Mortal. Protex diz a eles que dividirá a equipe em três para que cada um fique responsável por um QG. Essa informação complementa a informação dada pelo repórter na página um. Desse modo, fica a pergunta: o que Protex quer com essas construções? Qual a razão delas?

Cortamos para a LJ, que sem perder tempo divide-se em duplas para averiguar as construções. Superman e Batman vão para a Antártida. Mulher-Maravilha vai sozinha para o Oceano Pacífico e O Deserto de Góbi fica com Ajax, Flash e Lanterna Verde. Aquaman, que foi contatado no capítulo anterior ainda não respondeu. As três construções serem erguidas em locais estratégicos do nada faz com que a LJ não fique sem investigar. Esse é o Ponto de Virada 1 do capítulo. Um confronto é inevitável.

Ato II

O Ato II começa com a Mulher-Maravilha chegando ao Pacífico e sendo atacada por Fluxus. Antes que ela dê combate, dá uma chance de conversa ao alienígena, coisa que dispensa dizendo que irá Protex e seus companheiros matarão os superseres e depois escravizarão os terráqueos. Aparentemente a Princesa de Temiscira dá cabo do alienígena. Aquaman finalmente aparece, mas não está feliz. Ele havia ignorado o chamado da Liga e diz isso a Diana, de modo que os ânimos ficam esquentados entre os dois. Entretanto, Aquaman não poderia ignorar uma construção alienígena surgindo do nada em seu reino. Tronix aparece e Mulher-Maravilha dá combate. Aquaman pede ajuda de seus companheiros marinhos para abalar a estrutura do QG. Para azar dele, uma baleia que não é baleia aparece. Quando a Mulher-Maravilha tinha se encontrado com Fluxus minutos atrás, ficamos sabendo que ele é transmorfo. E disfarçado de baleia consegue chegar perto de Aquaman para atrapalhar.  Fluxus e Tronix derrotam Diana e Arthur.

Imediatamente vamos para Flash e Lanterna Verde no Deserto de Góbi. Sabemos que Ajax, que os acompanhava, está atrasado. Não é fácil acompanhar alguém que se move mais rápido do que a luz ou alguém com um anel que lhe transporta a velocidades incalculáveis pelo espaço. Porém, a sensação é de que algo aconteceu com ele.

Züm, o alienígena velocista imediatamente aparece se joga contra o Lanterna, mas Flash o intercepta, começando um combate entre os dois. Para pegar o Lanterna, aparecem Armek e Zenturion.

Cortamos para onde realmente Ajax está. Ele está bem longe dali, em algum lugar obscuro, conversando… com Protex. Ajax pediu, por algum motivo que ainda não sabemos, pra se encontrar em segredo com o líder do Hyperclan. É mais uma pista que Morrison dá de que se trata de marcianos, coisa que ficaremos sabendo em outra hora. Protex propõe a Ajax que ele traia seus companheiros e se junte ao Hyperclan.

Cortamos mais uma vez, sem saber a resposta de Ajax, para Superman e Batman, que estão chegando na Antártida. Batman está usando o Batjato para acompanhar Superman. Ambos detectam a chegada de mais alienígenas. Primaid atinge Superman em cheio.

O Ponto de Virada II é quando E-Mortal investe contra Batman, que contra-ataca com mísseis. Este os agarra e devolve para Batman, atingindo e fazendo seu veículo cair. No capítulo seguinte vemos que Batman sobreviveu e que isso será vital para a derrota de Protex e seus companheiros.

Ato III

Enquanto isso, no chão, Superman luta contra Primaid sem dificuldades, mas Protex aparece portando um pedaço de kryptonita, de modo que domina facilmente o herói.

Protex começa o clássico discurso de vilão e, no meio de suas falas, pergunta a Superman: “Não faz a menor idéia de quem somos, não é?” – mais uma clara indicação que não se trata de personagens criados do nada, eles já existem na cronologia DC. Mas como nunca os vimos antes? Só saberemos no final do arco.

E-Mortal pergunta: “Eu não devia procurar o corpo de Batman?”. Protex responde: “É melhor não se arriscar com as chamas. Se sobreviveu á queda, o frio vai aniquilá-lo. Afinal, é apenas um humano”.

“É melhor não se arriscar com as chamas”. Por que seres tão poderosos e superiores como o Hyperclan tem medo de fogo? Mais outra pista da identidade deles.

Na última página vemos Protex arrastando Superman para dentro do QG enquanto Primaid está perto dos destroços do Batjato, mas com um certo receio de se aproximar. E assim termina o 2º capítulo.

Considerações

Quando escrevemos um arco, geralmente o início do Ato II mostra as consequência terríveis e iniciais do grande problema criado no Ponto de Virada I do arco. Se a LJ não tivesse descoberto que o Hyperclan usou de manipulação mental, é provável que os heróis acreditassem que se tratava de alienígenas benéficos. Mas tal descoberta só pavimentou o caminho para um inevitável confronto, coisa que vemos no 2º capítulo. E Morrison cria muito bem essas consequências ao mostrar vilões que derrotam facilmente a LJ e de forma nunca vista antes. Em uma primeira leitura, dá mesmo a sensação de que os heróis se ferraram de vez.

A tendência do leigo é acreditar que um dos heróis nesse arco é a personagem principal ou mesmo que a personagem principal é a equipe em si. Morrison mascara muito bem Protex ao mostrar os heróis tendo problemas terríveis. Na verdade, a vitória nos confrontos iniciais torna Protex confiante o bastante para ignorar Batman, que como já escrevi, será essencial na derrota dele. Aparentemente a personagem principal não teve tantos problemas, mas apenas aparentemente.

Mais uma vez, quero salientar para não confunda os Pontos de Virada. Como expliquei em outra aula, quando escrevemos uma estória em várias partes, há o Paradigma que cobre todos os capítulos e, portante, tem os Pontos de Virada I e II desse Paradigma. É no Paradigma interno de cada capítulo que aparecem os sub-Pontos de Virada, que auxiliam a estrutura principal. Neste capítulo, a LJ se dividir para investigar os QGs apenas ajudou Protex, pois não foi preciso ir atrás de Superman, Batman, Flash e cia. E Batman ser abatido de modo que há fogo no Batjato só contribui para o Ponto de Virada II do arco, que acontecerá no final do 3º capítulo.

Lembre-se: os sub-Pontos de Virada auxiliam a estrutura principal do arco todo em si. E é isso que vemos aqui.

A LJ – e nós – sabem agora com toda a certeza de que o Hyperclan é hostil. As pessoas ao redor do mundo discordam, mas não viram o que o Hyperclan fez. Elas testemunharam no Ártico que houve confronto, pois Superman foi arrastado por Protex para dentro do QG deles, mas ninguém sabe o que houve entre a LJ e o Hyperclan, de modo que o plano de Protex ainda segue encoberto para o resto do mundo. E ainda há o detalhe de que as pessoas estão sob efeito de domínio mental, o que facilita a luta entre os recém-chegados e os heróis da Terra não ser questionado publicamente. No 4º capítulo veremos porque esse detalhe é tão importante.

Na próxima aula veremos o 3º capítulo de “Nova Ordem Mundial”. Até lá.

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Aula de Roteiro 09

Como prometido, nesta aula, ao invés de analisarmos uma obra do cinema, como “Chinatown”, começamos a analisar uma obra das HQs. Refiro-me ao arco chamado “Nova Ordem Mundial”, da Liga da Justiça de Grant Morrison. Esse arco foi a estréia do escocês com a maior equipe de super-heróis de todos os tempos.

Embora Morrison raramente seja simples no que escreve, “Nova Ordem Mundial” tinha a função de ambientar a nova Liga da Justiça, mostrando aos leitores qual seria a nova cara cada equipe. Sendo assim, perto do que faria depois, “Nova Ordem Mundial” beira à simplicidade mesmo, mas nem por isso deixa de ser empolgante.

Nesse arco, a recém-formada Liga da Justiça contendo apenas os medalhões da editora depara-se com a ameaça de uma equipe de extraterrestres que muda o mundo de forma que a Liga nunca pôde – ou nunca quis – ganhando a simpatia da população. Porém, mal sabe a LJ – e também o mundo – que os tais “bem-feitores” são marcianos brancos querendo dominar o planeta. É uma trama que, ao primeiro olhar, é batida, podendo cair na mesmice na mão de qualquer outro roteirista. Mas como sempre os roteiristas se perguntam ao se deparar com esse tipo de coisa, “qual a novidade que posso mostrar a um tema já visto milhares de vezes antes?”

O tema de invasão alienígena já foi visto das mais diversas formas. Se alguém consegue mostrar um novo ponto de vista, parabéns. Por enquanto, vamos ver porque um escritor conceituado como Morrison escolheu uma linha de argumento tão batida para sua estréia com a equipe.

A LJ vinha de algumas formações não muito consistentes. A DC, querendo tornar sua equipe realmente grande como sempre disse que era, chamou Morrison, talvez na época, o único que pudesse ter a mão pra isso, a ser o chefe da reformulação do título. Para isso, ele exigiu apenas os medalhões: Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Flash, Lanterna Verde, Aquaman e Ajax. Esses personagens nunca estiveram todos numa mesma equipe antes e ver a dinâmica entre eles e como seria o futuro da equipe era primordial. Sendo assim, o primeiro arco teria que ser uma apresentação geral. Em outras palavras, em “Nova Ordem Mundial”, Morrison mostra o leitor o que o espera pelos próximos arcos até o fim de seu contrato.

E que tipo de trama funcionaria perfeitamente como uma apresentação das características da equipe? Uma invasão alienígena, naturalmente. O intuito do escocês não foi criar uma obra marcante demais e nem que o arco entrasse para o hall de seus grandes trabalhos – ainda mais visto o que ele fez nos arcos seguintes com a equipe, fora seus outros trabalhos. Era a pura e simples apresentação mesmo.

Tendo isso em mente, vamos ver as características de “Nova Ordem Mundial”: arco em 4 edições, o que significa que teremos 1 edição para Ato I; 2 edições para o Ato II e, consequentemente, 1 edição para o Ato III. Isso preenche o esquema do paradigma de 25%/50%/25%. Obviamente, o Ponto de Virada I fica no final da 1ª edição e o Ponto de Virada II fica no final da 3ª edição.

NOVA ORDEM MUNDIAL – 1ª EDIÇÃO

Ato I

Como visto em uma aula anterior, temos o Paradigma do arco, que é o explicado acima, mas também temos o paradigma para cada edição; de modo que cria-se sub-pontos de virada que auxiliam – mas não são mais forte que – os pontos principais, que são os Pontos de Virada I e II do arco. Isso faz com que cada edição tenha seus Pontos de Virada I e II, criando a sensação de montanha-russa em todo o arco.

A personagem principal do 1º arco da LJ de Grant Morrison não é nenhum dos heróis. É Protex, líder do Hyperclan, que é como os marcianos brancos se disfarçam para aparecer na Terra. Se Protex não decide invadir a Terra, não tem estória. São as ações dele em nosso planeta que fazem a LJ se mexer; primeiramente acompanhando as tais maravilhas feitas por seus camaradas e depois de descoberta a verdade, é lutando contra eles. A LJ apenar reage contra Protex e seus irmãos.

Alguém pode perguntar algo como “Mas se Protex é a personagem principal do arco, por que ele aparece menos do que boa parte dos heróis da Liga?”

Há uma linha de pensamento enganosa que diz que todo personagem principal é aquela que precisa aparecer mais ou que tem seu nome na capa.

Errado.

Veja “Branca de Neve e Os Sete Anões”. A personagem principal não é Branca de Neve. É a Rainha Má. Ela quer – seu objetivo – ser a mais bela do mundo. E por um determinado tempo ela é. Até que a Branca nasce, cresce e se torna belíssima. Quando descobre a existência dela – o Ponto de Virada I – começa a fazer de tudo para matar a pobre menina. E assim vai.

Caso a Rainha Má não ligasse mais para o fato de ser a mais bela ou se ela por algum outro motivo nem quisesse fazer nada contra a Branca, não teríamos estória. E Branca continuaria lá, com seus afazeres e com seus passarinhos, sem ser ameaçada, sem conhecer os anões, entre outros detalhes dessa clássica estória. O mesmo acontece no caso de “Nova Ordem Mundial”. Além do mais, a personagem principal também pode ser apresentada sem que apareça fisicamente no Ato I, como visto em “Cidadão Kane”. Conhecemos Kane através das conversas entre outras personagens e através do rádio e dos jornais. No início da 1ª edição, Morrison faz o mesmo com Protex.

As cidades marcianas foram destruídas. A civilização marciana não mais existe. Não há mais condições de morar em Marte. Mas se Ajax era o único, onde estavam esses marcianos brancos? Em um lugar chamado Zona Estável, onde foram presos pelos marcianos verdes após serem punidos por interferir na vida de outro planeta no passado. Que planeta? A Terra. Descobrimos isso na 4ª edição, mas coloco aqui apenas para mostrar onde eles estavam antes do início de “Nova Ordem Mundial”.

No começo da 1ª edição vemos a Casa Branca. O Presidente está conversando com um de seus acessores sobre problema em relação a uma pequena, fictícia e problemática nação latina. Durante a conversa, a primeira pista: Águia Flamejante perdeu seus poderes ou “algo assim”. Ela seria a acompanhante meta-humana do Presidente nessa questão. Enquanto a conversa se desenrola, uma nave alienígena, ao estilo Independence Day, paira do nada sobre a Casa Branca, alertando os EUA. Consequentemente, chamam a LJ.

Enquanto a Liga está para chegar, vemos uma mini-estação espacial em órbita da Terra. Lá dentro estão Metamorfo, Nuklon, Dama do Gelo e Manto Negro. Eles estão preparando alguns equipamentos para que a nova Liga da Justiça possa começar a operar desde já. Enquanto fazem isso, detectam a nave alienígena, que teria passado pelos sensores deles sem problema algum, o que os deixa espantados. Conforme a conversa sobre a nave se desenrola, vem a confirmação da primeira pista: Dama do Gelo diz que “Fogo não vem porque perdeu os poderes ou ficou doente”. Fogo e Águia Flamejante tem poderes baseados no Fogo. Morrison está mostrando que algo já estava sendo feito para prevenir os marcianos brancos contra sua maior fraqueza. Essas pistas já apresentam, sem revelar diretamente, quem é a nova ameaça. Em uma primeira leitura, tais informações ajudam ainda a confundir o leitor. Naquela época, de marciano, só existia o Ajax. Não se sabia que marcianos brancos ainda estavam vivos. Mesmo que alguém pense na hipótese de marcianos, seria facilmente descartada por qualquer um. Essas duas pistas já dão uma das características de Protex – a personagem principal – e seus companheiros.

Rapidamente, o primeiro a chegar na Casa Branca é Superman. Morrison sabiamente escolhe que ele seria o primeiro da nova LJ a aparecer, afinal, ele é o suporte moral da equipe. Lá, Superman está para dar assistência diplomática e ainda cuidar da segurança de todos, pois não sabem de onde vem a nave, se será um contato amistoso ou hostil. E eis que de “ovos tecnológicos” depositados pela nave saem os integrantes do Hyperclan, alegando que vieram “salvar o mundo”.

Todo esse pedaço perfaz o Ato I da 1ª edição e o Ponto de Virada I. Mas como?

Cada edição tem 22 páginas. Desse modo, o paradigma de cada edição fica assim:

Ato I – 25% = 5,5 páginas

Ato II – 50% = 11 páginas

Ato III – 25% = 5,5 páginas.

Então o Ato I tem que ser apresentado até o meio da quinta página, que é onde o Ponto de Virada I do capítulo – mas não do arco – deve ser mostrado.

A descrição dos acontecimentos acima corresponde às cinco primeiras páginas do 1º capítulo. O Ponto de Virada I é quando Protex aparece fisicamente com seus companheiros dizendo que vai melhorar o mundo. Embora ele ganhe a atenção e a simpatia do mundo conforme veremos adianta, essa apresentação “calorosa demais” fará com que os membros da nova LJ fiquem desconfiados. A apresentação que Protex faz chama atenção demais e, com certeza, serão investigados pelos heróis. Por isso a apresentação é o problema que Protex terá que enfrentar para fazer seu plano seguir adiante. Antes disse, a nave está lá, as pistas sobre heróis baseados em fogo estão lá, ou seja, indiretamente e discretamente, Protex foi apresentado.

Ato II

Na sequência já vemos a reação da população ao Hyperclan através dos telejornais. Através deles, os membros da LJ apenas acompanham as ações dos novos visitantes. Os telejornais mostram a desculpa de Protex: eles são alienígenas cujo mundo foi abusado por eles, de forma a ficar inabitável e que agora eles vagam pelo universo promovendo mudanças para melhor em vários mundos para que a esterilidade planetária não seja razão de sofrimento de mais nenhum ser vivo.

Logo em seguida, os telejornais já mostram o Hyperclan promovendo as tais mudanças, como por exemplo, tornar apto para plantação um solo antes inutíl. A primeira reação contrária vem de Superman, que na frente de todos os jornalistas, avisa que tais mudanças podem ser apenas cosméticas  e que mexer demais e muito rápido com a natureza pode ser desastroso demais. Dessa forma, ele apenas pede que o Hyperclan vá com calma a fim de que tudo seja realmente bom para a humanidade e que as pessoas tenham calma com as mudanças que o Hyperclan vem fazendo. Os jornalistas acabam interpretando mal o grande herói, tornando-se contra as alegações dele. Protex, habilmente usa tal acontecimento a seu favor, dizendo aos jornalistas para “não serem injustos com o Superman”, fazendo com que ele fique com uma fama ainda maior de “salvador” do que o herói de Krypton. Superman foi claramente usado como muleta para o leitor.

Cortamos para outra hora e lugar. Um supervilão X é executado pelo Hyperclan. Isso mostra que as mudanças não se restringem ao mundo físico, mas que eles querem acabar de vez com o mal, começando pela criminalidade. Na verdade, os marcianos, ao usar de sentença de morte para eliminar criminosos, dá a falsa sensação de segurança para a população ao mesmo tempo que elimina possíveis ameaças. Com tal execução, os crimes meta-humanos caem vertiginosamente, mesmo em Gotham City, como mostra a imprensa.

De volta à mini-estação onde estavam Metamorfo, Manto Negro e cia, o Lanterna Verde Kyle Rayner está com a Mulher-Maravilha acompanhando a transição dos recursos para a equipe ao mesmo tempo que conversam sobre o Hyperclan. Rapidamente, a estação é invadida por uma ameaça desconhecida. São seres humanóides em trajes espaciais. Em nenhum momento tempo pistas de quem são. Os heróis desconfiam do Hyperclan, mas não há confirmação alguma. Sabemos apenas que são poderosos, pois atravessam sem dificuldade o casco da estação. Como apenas o Lanterna pode respirar no espaço graças a seu anel, ele retarda os invasores com a ajuda da Mulher-Maravilha para que os outros heróis consigam fugir antes de morrerem asfixiados.

Enquanto Lanterna e Mulher-Maravilha combatem no espaço, Metamorfo tem uma idéia completamente suicida, executando-a e salvando seus companheiros, mas ficando completamente inerte.

O Ponto de Virada II vem agora: Ao mesmo tempo que vemos Metamorfo agindo, em outra parte vemos Protex trazendo à tona um maquinário alienígena escondido em alguma parte de nosso planeta. Essa é a indicação de que os marcianos já estiveram aqui antes, como será mostrado no capítulo 4. Além disso, esse maquinário é a futura base do Hyperclan, que será usada mais tarde para aprisionar a Liga. Sem essa base, que contem uma máquina chamada “Flor da Ira”, seria impossível capturar os heróis. Como sabemos que o Ponto de Virada II é “acontecimento que salva ou condena a personagem principal”, a ativação dessa base é que permitirá que Protex siga adiante com seus planos.

Ato III

Imediatamente a nova LJ começa a se juntar para conversar sobre o Hyperclan. Mais uma vez, através dos jornais, vemos que a população abraça cada vez mais a existência do Hyperclan e que por algum motivo não muito claro, a LJ estaria para iniciar um confronto com os alienígenas. Conforme Superman, Lanterna Verde e outros conversam sobre o atentado à estação espacial, Batman revela sua presença e descobre durante o diálogo que o Hyperclan está usando de táticas de controle mental. Resumindo, agora sabem que é uma invasão e vão partir para o contra-ataque.

Assim acaba o 1º capítulo de “Nova Ordem Mundial”.

Como comentei antes, o Ponto de Virada I do arco é o final da 1ª edição. Qual seria esse acontecimento? É Batman descobrindo que é uma invasão de verdade e declarando guerra. Protex não conseguiu segurar um de seus segredos durante muito tempo.

Protex veio, se apresentou, disse que ele e seus companheiros estariam na Terra para melhorar o planeta. Ele começou a promover falsas mudanças para ludibriar a população enquanto que seus companheiros começavam por detrás dos panos a cuidar dos seres superpoderosos da Terra. A Liga apenas acompanhou tudo e colheu dados e informações. Batman foi a cereja do bolo.

Lendo isso, fica clara a apresentação do arco na 1ª edição, com seu Ponto de Virada I.

Na próxima aula veremos a 2ª edição de “Nova Ordem Mundial”.

Aula de Roteiro 08

Eis que continuamos com a análise de “Chinatown”, clássico do cinema e grande roteiro escrito por Robert Towne. Quem quiser a versão em português do trecho do roteiro do filme, mande e-mail para emiliobaracal@gmail.com

“Sabe de uma coisa, Jake?”, Curly diz a Gittes na página 3, “Acho que vou matar ela (sua esposa)”.

Gittes responde com os diálogos proféticos que ilustram o ponto de vista de Towne. Você tem que ser rico pra matar alguém, qualquer um, e livrar-se disso impune. “Você acha que tem esse tipo de grana, que tem esse tipo de classe?” – Ironicamente, essa foi uma das cenas cortadas quando o filme foi adaptado para a TV americana.

Curly certamente não pode escapar impune do assassinato, mas Noah Cross (John Huston), pai de Evelyn Mulwray e ex-chefe do Departamento de Água e Energia ao mesmo tempo em que Hollis Mul­wray, pode e escapa. O final do filme mostra John Huston carregando sua filha/neta para a escuridão da noite após Faye Dunaway ter sido morta tentando escapar. Esse é o ponto de vista de Towne: “você tem que ser rico para matar alguém, qualquer um, e livrar-se disso impune.”.

Isso nos leva ao “crime” de “Chinatown”, um esquema baseado no escândalo da água conhecido como A Violentação do Vale Owens. Esse é o pano de fundo de “Chinatown”.

Em 1900, a cidade de Los Angeles, uma “comunidade no deserto” como um ex-prefeito de lá cos­tuma sempre lembrar, crescia e se expandia tão rápido que literalmente não tinha água. Se a cidade quisesse sobreviver, teria de encontrar outra fonte de água. L.A. é vizinha do Oceano Pacífico. As pessoas podem nadar nele, podem pescar, velejar nele, mas não podem beber dele, não podem regar seus gramados com ele e não podem irrigar um laranjal com ele.

A água mais próxima de L.A. é o rio Owens, localizado no Vale Owens, uma área verde e fértil a cerca de 250 milhas a nordeste de Los Angeles. Um grupo de negociantes, líderes comunitários e políti­cos – alguns os chamam de “homens de visão” – enxergaram a necessidade de água e conceberam um esquema maravilhoso. Eles adquiriram os direitos sobre as águas do rio Owens, pela força se necessário, e depois compraram toda aquela terra sem valor no Vale San Fernando, cerca de 20 mil­has afastado de L.A. Eles emitiriam então um bônus que levantaria fundos para a construção de um aqueduto desde o Vale Owens, através de 250 milhas de deserto escaldante e montes recortados, até o Vale de San Fernando. Eles venderiam a agora “fértil” terra do Vale de San Fernando para a cidade de Los Angeles por uma enorme soma de dinheiro; cerca de 300 milhões de dólares.

Esse era o plano. O governo conhecia, os jornais sabiam dele, todos os políticos locais tinham con­hecimento dele. No tempo certo, as autoridade “influenciaram” o povo de Los Angeles a aprovar a emissão dos tais bônus.

Em 1906, uma seca assolou Los Angeles. As coisas ficaram ruins, depois pioraram. As pessoas foram proibidas de lavar seus carros ou regar seus gramados; não podiam dar descarga no vaso sanitário mais que umas poucas vezes ao dia. A cidade secou; flores morreram, gramados amarelaram e man­chetes assustadoras estampavam “Los Angeles morre de sede!” “Salvem nossa cidade!”

Para ressaltar a necessidade drástica de água durante a seca e para assegurar que os cidadãos aprovariam a emissão dos bônus, o Departamento de Água e Energia despejava milhares de litros de água no oceano.

Na hora de votar, a emissão dos bônus foi aprovada facilmente. Levaram vários anos para completar o aqueduto do Vale Owens. Quando ele foi finalizado, William Mulholland, então chefe do Departamento de Água e Energia, entregou a água para a cidade: “Aí está ela”, ele disse. “Podem pegá-la.”

Los Angeles floresceu e cresceu como um incêndio, o vale Owens definhou e morreu. Não admira que isso tenha recebido o nome de A Violentação do Vale Owens. Robert Towne pegou esse escândalo que ocorreu em 1906 e usou-o como pano de fundo em Chinatown. Ele mudou o período da virada do século para 1937, quando os elementos visuais de Los Angeles tinham a aparência clássica e distinta do sul da Califórnia.

O escândalo da água é tramado através do roteiro, e Gittes o descobre uma parte de cada vez. Eis porque é um grande filme. “Chinatown” é uma viagem de descoberta. Descobrimos as coisas ao mesmo tempo em que Jake Gittes. Público e personagem estão liga­dos, reunindo pedacinhos e retalhos de informação, e os montando ao mesmo tempo. É uma história poli­cial, afinal.

Syd Field, conhecidíssimo professor de roteiro e con­sultor em Hollywood passou bastante tempo analisan­do o roteiro de “Chinatown”. Quando soube que um escândalo da vida real havia sido usado como pano de fundo para o ponto de vista de Robert Towne para uma história policial, ele decidiu que deveria saber mais sobre o Vale Owens. Ele então pesquisou a pesquisa de Towne. Descobriu as origens, anteced­entes e fatos do escândalo do Vale Owens. Da próxima vez que ele leu o roteiro e assistiu ao filme, era como se estivesse vendo pela primeira vez.

O escândalo de água que Noah Cross concebe e executa, o crime que causa as mortes de Hollis Mul­wray, Leroy o bêbado, Ida Sessions e finalmente Evelyn Mulwray, o escândalo descoberto por Jake Gittes, é tramado com grande sutileza e habilidade através de todo o roteiro.

E Noah Cross livra-se sem responder ao assassinato.

Tudo isso é estabelecido e apresentado na página 8, quando Gittes está na câmara do conselho e ou­vimos Bagby argumentando que “oito milhões e meio de dólares é um preço justo a pagar para manter o deserto longe de nossas ruas – e não em cima delas”.

Mulwray, o personagem baseada em William Mulholland, replica que o local do dique é inseguro, como ficou provado com a catástrofe de Van der Lip, e diz, “Não vou construí-lo. É simples assim – não vou cometer o mesmo tipo de erro duas vezes”. Ao recusar-se a construir o dique, Hollis Mulwray tornou-se alvo para assassinato; ele é um obstáculo e deve ser eliminado.

De novo, na página 10, a questão dramática do roteiro é levantada: “Você rouba a água do Vale, ar­ruína os pastos, faz meu rebanho morrer de fome” – grita o fazendeiro que invade as câmaras. “Quem lhe paga para fazer isso, Sr. Mulwray, é o que eu quero saber!”

Gittes também quer.

Esta é a questão que conduz o filme para sua res­olução final e é inteiramente apresentada desde o início, nas primeiras dez páginas, e move-se numa direção linear até o fim.

Ao introduzira Personagem Principal, estabelecer a premissa dramática, criar a situação dramática, o roteiro movimenta-se com precisão e habilidade para sua conclusão.

“Ou você traz a água para L.A. ou leva L.A. até a água”, Noah Cross diz a Gittes.

Esse é o fundamento de toda a história. É o que a faz tão boa. Simples assim.

Na próxima aula, análise de uma estória de Grant Morrison, para ver como tudo se aplica às HQs.