Aula de Roteiro 05

COLOCANDO O PARADIGMA EM PRÁTICA – ANÁLISE

Relembrando a Apresentação (Ato 1): “Alguém, em algum lugar, fazendo (ou querendo fazer) alguma coisa”.

Usando o filme Matrix (porque só o primeiro importa, opinião pessoal) e tendo a frase que define o Ato 1 em mente, temos: “Thomas Anderson, funcionário de uma grande empresa de softawares e hacker nas horas vagas que atende pela alcunha de Neo (alguém), em uma cidade grande dos dias de hoje (em algum lugar), querendo saber o que é a Matrix e por que um suposto terrorista internacional (o querendo fazer alguma coisa) conhecido como Morpheus está atrás dele”.

Ponto de Virada 1: “Evento na estória que muda seu rumo, atrapalhando os objetivos da personagem principal, fazendo com que tenha que resolvê-los de uma maneira ou de outra antes de conseguir o que quer”

Em Matrix, seria: “Neo decide saber a verdade, tomando uma das pílulas que Morpheus lhe mostra”.

Essa cena é o Ponto de Virada 1. Tudo de estranho está acontecendo com Neo. Ele se vê no meio de uma conspiração e fica em dúvida se deve seguir em frente ou cair fora o mais rápido que pode. Várias coisas são apresentadas a ele, através dos Agentes e através de seu encontro com Morpheus. Ele precisa pesar o pouco que sabe e tomar alguma decisão. “Personagem é aquele que faz, não aquele que fala” – falarei sobre essa frase quando chegar as aulas de criação de personagens.

Se Neo decide cair fora, não tem estória. Ele não fica sabendo de nada. Se ele decide – e é o que acontece – saber a verdade, ele entrará em um mundo que jamais imaginou, tendo que arcar com responsabilidades que ele nem sequer sabe que existem.

Ato 2: Entre os Pontos de Virada 1 e 2, temos a Confrontação (Ato 2), que é onde a personagem principal enfrentará todos os obstáculos decorrentes do que ocorre no Ponto de Virada 1.

No caso de Matrix, Neo imediatamente começa a aprender sobre o verdadeiro mundo real, o que é a Matrix, a situação da Humanidade, passa por um treinamento, consulta-se com a Oráculo em busca de iluminação, entre outros detalhes que ele precisa superar/tomar conhecimento para resolver o problema que conseguiu.

Ponto de Virada 2: “Evento na estória que muda seu rumo mais uma vez, sendo que agora ajuda  – ou não, em casos de finais tristes – a personagem principal a atingir seus objetivos, resolvendo – ou não – todos os seus problemas”

Com Morpheus nas mãos dos Agentes, Neo tem que decidir se fica à salvo na nave Nabucodonosor ou se entra na Matrix para uma impossível tentativa de resgate. Morpheus conhece a senha para entrar em Sião, a última cidade humana. Ele não resistirá muito tempo na mãos dos Agentes e suas cruéis técnicas de interrogatório. O tempo urge. Ele precisa tomar alguma decisão. Ele precisa fazer algo. E ele faz: escolhe salvar o amigo, que é mais importante que ele, já que a Oráculo tinha lhe dito que ele não era O Escolhido e que Morpheus é o homem que achará o verdadeiro Escolhido – além de ter a já comentada senha de Sião, claro.

Resolução: É o pedaço do roteiro que mostra as consequências de todas as decisões – boas ou ruins – tomadas pela personagem principal; fechando todas as pontas soltas.

Devido à decisão tomada no Ponto de Virada 2, Neo acaba tendo que passar por obstáculos que ninguém jamais tinha enfrentado. Sua determinação em salvar o amigo é tão grande que ele precisa entender definitivamente as leis da Matrix de forma a ter alguma chance, mesmo que remota, contra os Agentes. E ele consegue esse entendimento a ponto de todos perceberem que ele é realmente O Escolhido. Ele salva Morpheus, derrota os Agentes e manda um recadinho para a Matrix.

FIM

(ou deveria, já que o sucesso subiu á cabeça dos irmãos Wachowski, se empolgaram, esqueceram do roteiro e fizeram Matrix Reloaded e Matrix Revolutions)

Observe como o esquema do Paradigma é montado na imagem abaixo seguindo a estrutura de Matrix. Basta apenas clicar nela:

Difícil? Nem tanto, não é?

Exercício proposto: assista a filmes. Leia quadrinhos e livros. Assista suas séries preferidas. Monte a linha do tempo e tente identificar a estrutura. Quem é a personagem principal e por que? O que está tentando realizar? Quais são os Pontos de Virada? Como acaba? Qual é a grande transformação pelo qual as personagens passam? Responda essas e outras perguntas – elas sempre surgem – e você terá uma idéia de como tudo é estruturado antes que qualquer cena seja descrita, qualquer diálogo seja posto na boca das personagens.

Vejo vocês na próxima.

Aula de Roteiro 04

RECAPITULAÇÃO DA ESTRUTURA DO PARADIGMA

Como vimos na aula anterior, o esquema dos três atos divide um espaço imaginário, desenhando em uma espécie de “linha do tempo”, de forma a nos dar três partes, sendo duas de 25% (Atos 1 e 3) e a outra, de 25% (Ato 2). Só para relembrar, com outros exemplos, a primeira coisa que você deve saber sobre sua estória é: que tamanho ela tem? É um desenho animado de 20 minutos? É um curta-metragem de 12 minutos? É uma HQ de 10 páginas? Quanto tempo você tem pra contar sua estória?

Com esses exemplos em mente, ficaria assim:

No exemplo 01, vemos um esquema de roteiro de um desenho animado de 20 minutos. O Ponto de Virada 1 aconteceria com 2 minutos de roteiro e o Ponto de Virada 2 ocorreria com 15 minutos de roteiro. No exemplo 02, vemos o exemplo de um curta-metragem de 12 minutos e, em seguida, uma HQ de 10 páginas. O esquema não muda, não importa a mídia e o tamanho da estória.

Adicionando, em um roteiro haverá um e APENAS UM personagem principal. Isso ocorre porque a estória é contada do ponto de vista da personagem principal. São as decisões dessa personagem que movem a estória pra frente. São as ações dessa personagem que fazem o roteiro evoluir. Os outros personagens são reativos.

Além do mais, para aqueles que querem ainda assim colocar mais de uma personagem principal, imagina ter que criar Apresentação, os dois Pontos de Virada e Resolução pra cada um…

Outra dúvida pertinente: vamos supor que você está escrevendo Amazing Spider-Man. Ok, não é porque tem o nome do Homem-Aranha na capa da revista que em todo capítulo/história, a personagem principal é ele. É apenas o nome da revista. Para contar sua estória, você pode fazer com que a personagem principal seja qualquer um. Tem capítulos que a personagem principal é a Tia May. Tem outros que é a Mary Jane. Já em outros, é o Jameson. Na maioria das vezes, é o Peter. Porém, isso nem pode e nem deve ser uma regra imutável. Certa vez, John Byrne fez uma estória em que a personagem principal de uma HQ do Quarteto Fantástico era o próprio Edifício Baxter. O Ardiloso tentava invadir o prédio e tentava passar pelas defesas do lugar. Ao invés de contar pelo ponto de vista do vilão, ele deu um jeito maravilhoso e inusitado de usar o prédio como personagem principal.

E para os que duvidam que um objeto não pode ser a personagem principal, pense em O Senhor dos Anéis. A personagem principal não é Frodo, Gandalf, Aragorn e nem mesmo Gollum. É o Um Anel. Tira ele da estória… tem estória? Não.

É o Um Anel que mexe com as pessoas e seres. É devido a ele que todo mundo está em guerra. É ele que influencia o rumo de todos.

A ESTRUTURA DENTRO DA ESTRUTURA

Mas e estórias que não acabam de uma vez só? E uma HQ que não é só uma edição, mas sim, várias? E uma minissérie de TV? E um seriado cujos capítulos sempre tem continuação? Como faz?

Existe a estrutura dentro da estrutura.

Primeiro, deve-se ver tudo como uma coisa só. A estória é grande, de modo que foi dividida em partes, que são os capítulos ou episódios. A minissérie ou saga possui um paradigma principal, com seus Pontos de Virada e demais características. Porém, há o que chamamos de “estrutura dentro da estrutura”.

A “estrutura dentro da estrutura” nada mais é do que a elaboração de um paradigma para cada capítulo/episódio; ou seja, cada parte da estória tem uma estrutura menor, que colabora – mas não substitui ou suplanta – a estrutura principal.

Para ficar mais fácil o entendimento, vamos pensar em uma minissérie de 12 episódios. Obedecendo ao tamanho de cada Ato, eu tenho então 3 episódios para a Apresentação, 3 episódios para a Resolução e 6 episódios para a Confrontação. O Ponto de Virada 1 ocorre no final – última sequência – do episódio 03 e o Ponto de Virada 2 ocorre no final – última sequência – do episódio 9.

Essa seria a estrutura principal da minissérie. Entretanto, cada capítulo teria sua estrutura fechada, com um Ponto de Virada extra (que muitos roteiristas chamam de “Gancho Final”) no final de cada episódio, dando a pista de como será a Apresentação do episódio seguinte e prendendo o público à minissérie.

Veja o seguinte exemplo, clicando na imagem:

Com esse esquema, após acostumar-se, fica quase impossível se perder na minissérie, seriado ou HQ de vários capítulos que queria contar. A não ser, claro, que tome muito chá de cogumelo, como os roteiristas de Lost…

Uma verdadeira lição de Quadrinhos.

O Zap!HQ não é um site/blog de notícias, mas aconteceu algo hoje que seria difícil não passar pra frente.

Eis no link abaixo uma verdadeira lição de Quadrinhos, vinda dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá. É sobre um e-mail escrito por Ivan Reis (Lanterna Verde) sobre a repercussão de Blackest Night, seu mais recente trabalho para a DC. Eu também recebi esse e-mail e me emocionei muito quando o li.

http://10paezinhos.blog.uol.com.br/arch2009-12-01_2009-12-31.html#2009_12-01_19_01_42-2677714-0

O e-mail é lindo e o complemento dos gêmeos é uma verdadeira lição não apenas para os pretensos e futuros quadrinhistas, mas também – e pode ser até principalmente – para o retrógrado leitor brasileiro, que costuma não apoiar muito os nossos profissionais e, principalmente, o que é feito aqui. Isso porque nem citei aqueles que só costumam ofender. Vocês sabem quem são.

No final das contas, isso tem tudo a ver com iniciativas como a do Zap!HQ e a do Quarto Mundo, por exemplo.

Cursos de roteiro presenciais na Tecnoponta Treinamentos

Olá pessoal.

Só passando pra deixar registrado a abertura das próximas turmas do meu curso de roteiro na Tecnoponta Treinamentos. Eis o link do curso essencial:

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E o do avançado:

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Mais detalhes no fone (13) 2104-4777 ou pelo e-mail santos@tecnoponta.com.br