Aula de roteiro 28 – Formatação – Parte 1

A partir desta aula começa uma série de aulas falando de formatação. Sem ela, você não tem como aplicar tudo que expliquei até o momento. Falarei de formatação de diversas mídias, não só de quadrinhos. Porém, obviamente, tratarei primeiro da formatação de roteiros da nona arte.

Antes de partir para as peculiaridades de cada formato, há uma regra que deve ser seguida à risca: evite a todo custo, descrever ângulos de câmera.

Evite colocar “close em…” ou “personagens em plano médio de…”. Você só arranjará problemas. Sério.

Quem tem melhor noção de como uma cena ficará na página é o desenhista. Ele lerá a descrição de uma página e saberá que tamanho cada quadro terá. E a partir desse tamanho ele achará o melhor ângulo para abordar cada quadro de modo a criar uma sequência dinâmica e interessante.

Porém, às vezes, alguma indicação de ângulo é necessária para criar certo clima ou para passar certa informação de uma maneira que surpreenda o leitor. Por isso usei a palavra “evite”. Em outras palavras, você pode colocar ângulo de câmera, mas só atrapalhará o desenhista se usar esse recurso a todo momento. Lembre-se que você não é o único contador de história em uma HQ e também lembre-se que o desenhista tem que se divertir também.

Costumo enfatizar que descrição de ângulo de câmera só deve ser usado se houve necessidade roteirística para tanto.
Não existe um método universal para escrever seu roteiro. Em primeiro lugar, você tem que se sentir confortável escrevendo, seja o estilo que você usar na hora de dividir as informações para o desenhista. Se você for o desenhista, fica mais fácil, mas mesmo assim, você tem que escrever, não pode ficar relaxado.

Independente dos formatos usados pelos roteiristas, invariavelmente caem em duas categorias: roteiro aberto e roteiro fechado.

Um roteiro fechado é um roteiro de quadrinhos que tenta incluir tudo o que um artista seria necessário para visualizar cada página que você (o escritor) tem em sua cabeça. Existem muitas maneiras de criar um roteiro fechado. Ele recebe esse nome porque o roteirista tem controle total do roteiro devido a ser dividido em página, em quadros, as falas estarem inclusas, etc. Fica mais difícil o roteirista se perder, criar sem querer algum furo de roteiro, permite estruturar melhor o que está escrevendo, entre outras coisas. O único trabalho que o desenhista tem é… bem, desenhar.

A desvantagem desse formato é que pode ocorrer um choque entre as características de uma página e a capacidade artística do desenhista. Pode ser que uma página tenha quadros demais e, dependendo do que eles contém, fica impossível o desenhista criar um bom storytelling. Tem desenhistas que resolveriam essa página sem maiores problemas enquanto outros teriam enormes dificuldades. Esse é só mais um motivo para você conhecer bem o desenhista com o qual trabalha. Precisa conhecer as características dele e saber até onde ele consegue ir com sua arte no momento.

Um roteiro aberto é o que antigamente era chamado de “maneira Stan Lee de roteirizar”. Como o nosso querido Excelsior tinha que escrever praticamente tudo na Marvel, ele não tinha tempo para fazer roteiros fechados. Dessa forma, ele apenas descrevia tudo o que acontecia numa página, sem (ou com pouquíssimo) diálogos ou outros detalhes e deixava a cargo do desenhista resolver. Como ele trabalhava do lado de lendas como Jack Kirby e Steve Ditko, qualquer dúvida era tirada ali mesmo.

Para o roteirista, um roteiro aberto é mais rápido de escrever, pois você não precisa se preocupar com divisões de quadros. Ao ler um roteiro aberto, parece que estamos lendo um livro, mas sem os diálogos e sem floreios literários. É descrição fria e simples. O roteiro aberto é também vantajoso quando você já trabalha há tanto tempo com um desenhista que o roteiro fechado torna-se desnecessário porque seu parceiro já sabe como você pensa. O desenhista é que, ao ler a página, decidirá como contá-la, em quantos quadros irá dividí-la e exatamente o que da descrição haverá em cada quadro. O desenhista terá um trabalho a mais de interpretação, mas ele ficará mais livre criativamente.

Depois de desenhada, o roteirista pega uma xerox da página e desenha e escreve (hoje, faz isso no photoshop) os balões e legendas. Não, ele não faz o trabalho de letreiramento. É algo bem sugerido e rápido pro letrista ter uma indicação. A desvantagem para o roteirista é que ele fica limitado ao espaço-morto (áreas que cobrindo com balões, não afetará a compreensão do desenho) para escrever seus diálogos e legendas. Ás vezes desejamos colocar mais coisa e não há espaço. Aí é uma batalha pra ver como você colocará mais informação com menos texto.

A desvantagem maior é que o roteirista tem que tomar cuidado pra não colocar informação demais em cada página. Quadros podem ficar lotados de descrição, dificultando e muito o trabalho do desenhista.

Ao escrever um roteiro fechado, o escritor contará apenas com ele, ou seja, o prazo é dele, o esquema é todo dele, ao contrário do roteiro aberto, onde depende que as páginas do desenhista sejam enviadas a ele para que possa escrever os diálogos de forma apropriada. Ele depende dele e apenas dele. O roteiro aberto é exatamente o contrário: não há quase delimitações para o desenhista. Ele é escrito quase que na forma de livro, onde o desenhista é muito mais livre para diagramar e ditar o ritmo da história. Você separa apenas página por página, de modo que todo o conteúdo descrito em uma página pode ser diagramado do modo que o desenhista quiser, com quantos quadros o desenhista quiser. Contém apenas uma ou outra fala importante, apenas para dar uma noção melhor das coisas para o desenhista.

Obviamente, existe um método – no estilo roteiro fechado – segundo o qual eu, particularmente, gosto de escrever. E é o primeiro que irei apresentar aqui. Abaixo, segue a explicação de cada tópico existente nas páginas.

Apresentação – geralmente, em ordem, as seguintes descrições:

Cabeçalho e rodapé: sempre coloco meu cabeçalho e rodapé assim:

“EMÍLIO BARAÇAL – emiliobaracal@gmail.com – 13 3345.xxxx / 13 9741.xxxx”

A razão de fazer isso é para o editor e demais profissionais (desenhista, arte-finalist, etc) não terem que ficar voltando na capa do roteiro para ter seus contatos. Não importa em que página estejam, seu nome e contatos estão em todas as páginas.

Título: (aqui vai o nome da revista e seu número, por exemplo, “Homem-Aranha nº34”)
História: (aqui vai o título da história, por exemplo, “O Caso dos Tomates Assassinos”)
Roteiro: (coloque seu nome e contatos aqui – nome, e-mail e telefones)

Ás vezes, dependendo da história, sempre há necessidade de observações ou atenção a algum detalhe específico. Então, antes de ir propriamente para as páginas, se necessário, escrevo um texto rápido – meia página, no máximo – para escrever sobre o papel do capítulo em si na estrutura do arco inteiro, intenções, clima da história, entre outras coisas.

Em seguida, coloco a descrição das páginas. Por exemplo, “PÁGINA #01”. Com tudo em maiúsculo, ajuda a separar página por página, pois coloco a separação dos quadros apenas com a primeira letra maiúscula e depois a descrição do quadro. Por exemplo:

PÁGINA #04
Quadro 1 – blá blábláblá blábláblá blá bláblá.

Quadro 2 – bláblábláblá blá blábláblá blá.

E assim por diante. Porém, em cada quadro, além da descrição, coloco falas e outros balões. Sendo assim, aí vai uma explicação básica:

Cartela, Caixa ou Legenda: esse é o espaço aonde vai a informação que o roteirista quer passar para o leitor, sendo a fala de um personagem ou não. Quer um exemplo? Veja abaixo.

LEGENDA
Enquanto isso, na Sala de Justiça…

Fala ou Diálogo: é o espaço aonde vai as falas dos personagens, onde segue o diálogo ou monólogo daqueles que aparecem na sua história. Na fala, o personagem pode estar literalmente falando ou pensando (sim, com aqueles balões clássicos de pensamento em forma de nuvens). Como diferenciar os dois. Eu – gosto desse recurso – sempre coloco, depois do nome do personagem e antes de dois pontos, o seguinte símbolo gráfico “(p)”. Sempre aviso quem vai trabalhar comigo, seja um editor ou um desenhista, o que cada aspecto do meu estilo significa. Assim, quando alguém ler, já sabe se o personagem está falando ou pensando. Quando a fala do personagem está em uma legenda, desnecessário usar o “(p)”.

Voz “em off”: sim, há momentos em que existirão balões de personagens que estão fora de determi¬nado quadro. E é isso que você deve colocar no mesmo lugar do (p) quando isso ocorrer.

Repare também que coloco o nome/indicação de personagens sempre em maiúsculas para não ter qualquer erro de quem faz o que. Resumindo, uma descrição então pode ficar assim:

PÁGINA #17
Quadro 1 – Cena de PETER na fila do banco, mas não dentro dele. O banco está tão lotado que a fila está do lado de fora. Várias pessoas de todos os tipos estão na fila, na frente e atrás dele. Peter parece preocupado.

CARTELA
Queens, NY, 15:43hs.

PETER
(p)
Meu Deus, será que essa fila não acaba nunca? Eu demoro e depois a tia May e MJ vão ficar preocupadas, pensando que estou me atracando com o supervilão da semana ou algo assim…

Quadro 2 – PETER olhando no relógio.

PETER
(p)
Só vou ficar mais uns quinze minutos, se ao menos não conseguir entrar no banco, caio fora. Paciência, outro dia pago esta maldita conta e…

Quadro 3 – Cena de PETER desviando a sua atenção. Ele não está mais olhando para o relógio e sim para a entrada do banco. Todo mundo ao redor está surpreso. Na entrada, TRÊS LADRÕES estão saindo do banco. Dois deles estão com armas em punho e carregando sacos de dinheiro. O terceiro está abrindo a traseira de um furgão.

PETER
… o quê?

LADRÃO 1
Hahahahaha!

LADRÃO 2
Rápido, sem brincadeira!

LADRÃO 3
Ei, que graça tem se não tiver diversão?

Quadro 4 – Cena de PETER olhando para o céu, com cara de quem não acredita.

PETER
(p)
Diz aí… você aí em cima gosta de mim, né?

Quadro 5 – Cena de PETER correndo para algum lugar enquanto, de fundo, vemos o furgão indo embora velozmente, ao mesmo tempo em que as pessoas estão paralisadas, atônitas com o roubo. PETER está com uma expressão de quem está procurando algo.

PETER
(p)
Beco? Cabine telefônica? Não, muito demodê. Vamos lá, Peter, ache algum lugar discreto!

PÁGINA #18
Quadro 1 – blá blábláblá blábláblá …

E assim vai.

Os diálogos vão centralizados na página. Essa formatação, oriunda do cinema, ajuda a visualizar melhor cada elemento. Quando você vê algo centralizado, nem precisa ler e já sabe que é uma fala ou legenda, por exemplo.

Boa parte dos roteirista profissionais usa algum software de edição de roteiros. Na verdade, é até obrigatório, na minha opinião. Esses programas tem recursos e facilidades que permitem ao roteirista se preocupar apenas em escrever, sem precisar ficar formatando tudo, como no Word. Esses programas já formatam automaticamente o que você está escrevendo, pois reconhecem o que você escreve.

O mais indicado e usado deles é o Final Draft. Ele é praticamente o Photoshop dos roteiros. Em aulas futuras estarei falando dele e ensinando como usá-lo, então fique esperto.

Estou disponibilizando para download um roteiro que escrevi, em dois formatos. Estão em .fdr (arquivo do Final Draft, editor profissional de roteiros) e .pdf. Assim vocês podem analisar a formatação que uso. Escolha o seu:

Versão PDF clicar aqui clique aqui.

Versão FDR clique aqui.

Agora segue um exemplo de uma página de um roteiro aberto:

PÁGINA SEIS

Cortamos para um jardim no exterior do castelo um pouco depois da última cena da página anterior. Thor e Loki (adolescentes) estão no jardim, atirando algumas flechas contra uma árvore próxima. Já há algumas flechas nela e outras na grama, inclinada por estarem um pouco afundadas lá. Loki está com o arco e Thor está pulando em volta dele dizendo algo como “Ei, me deixa tentar! É a minha vez!”. Agora tenha em mente que é um arco para adultos, o que faz com que seja grosso demais para as mãos de duas crianças, o que lhes traz uma certa dificuldade de manuseio. Por sinal, é também o arco de Odin, o que traz ainda mais dificuldades. Loki o estuda sob o olhar de um Thor muito animado. Já na mão de Thor, o jovem deus tenta puxar a corda para trás, mas é caçoado por Loki conforme este vê a dificuldade que o irmão tem de manipular a arma. Close no rosto de Thor, que é pura concentração. Um dos olhos fechados, talvez parte da língua saindo por um dos cantos da boca. Nesse momento, jogue um pouco a câmera mais para trás para termos um ângulo médio para mostrar a ação. Loki está rindo e dando um tapinha nas costas de Thor, o que faz com que ele dispare erroneamente a flecha, que vai sem direção alguma.

Fim da página.

PÁGINA SETE

Blá BláBláBlá Blá BláBlá BláBláBlá Blá…

E assim vai.

Agora o desenhista pode dividir a diagramação em quantos quadros quiser, testar o ritmo de narrativa e então desenhar a página. Com ela pronta, o roteirista a vê e elabora os diálogos conforme os espaços disponíveis e com o que tem na cabeça (ou mais provavelmente, em anotações em separado) para o tipo de história que quer contar.

Bom, como eu expliquei, existem vários métodos e este é o que mais gosto. Já Peter David, conhecidíssimo roteirista de quadrinhos, gosta de escrever em roteiro aberto.

Há outros roteiristas que preferem dividir uma página em duas, usando uma linha vertical, onde a descrição do quadro fica do lado esquerdo e as falas que ficam no respectivo quadro ficam do lado direito. Eu não gosto muito desse método, mas vai que funciona melhor pra você, não?

Busque, pesquise, vá atrás dos trabalhos de outros roteiristas. Às vezes, pode calhar de alguma forma que certo roteirista usa ser a perfeita para você. Anos atrás eu mesmo nunca tinha visto como Frank Miller, um dos meus roteiristas preferidos, escrevia. E claro, quando tive essa oportunidade fiquei extremamente surpreso quando vi que a forma de roteiro fechado que ele usa é muito semelhante à forma que uso.

Você pode também misturar a formatação do roteirista x com a do roteirista y e achar uma coisa só sua, mas que seja funcional. Existe um site chamado Comic Book Script Archive, onde você pode ver diversos roteiros de gente como Brian Michael Bendis, Chuck Dixon, Warren Ellis, entre outros. Para ir direto para a seção de roteiro, clique aqui.

Na próxima aula lidarei com aspectos mais abstratos da descrição de páginas e cenas. E gostaria de colocar aqui um agradecimento ao amigo Allan Pollar, do Nerdrops (Clique aqui, caso não conheça o site), pelo espaço disponibilizado para os roteiros serem baixados.

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8 Responses to Aula de roteiro 28 – Formatação – Parte 1

  1. Ramon dos Santos says:

    Esta bom. Porém não compreendir uma coisa.
    No roteiro de HQ é aceito descrição de pensamentos e expressões?
    E se caso poderia usar esse recurso no cabeçario EXT. BANCO/ENTRADA-DIA.
    grato

    • zaphq says:

      O cabeçalho do jeito que colocou está claro e objetivo. Funciona assim mesmo.

      No caso de pensamentos, você poderia colocar assim:

      LEGENDA
      (Peter Parker)
      Srá que o Jameson vai perceber?

      O fato de ser uma legenda (ou caixa) onde consta o nome de Peter logo abaixo já mostra que é pensamento. Se quiser usar os clássicos balões em forma de nuvem, seria assim:

      PETER PARKER
      (pensamento)
      Será que o Jameson vai perceber?

      Um abraço!

  2. Ramon dos Santos says:

    ok. Mas no caso de expressões, nos podemos colocar:
    PETER PARKER
    (nervoso)
    Aonde ela esta?

    Ou é melhor substituir a expressão por uma ação.

    PERTER prensa fortemente o ladrão na parede.

    • zaphq says:

      Sim, sem problemas. O principal é usar tais recursos de forma que um não entre em conflito com o outro, deixando o mais simples e claro possível para a equipe de arte.

  3. Ramon dos Santos says:

    Ou é melhor substituir a expressão por uma ação.

    PERTER prensa fortemente o ladrão na parede

    PETER
    Aonde ela esta?

  4. Ramon dos Santos says:

    Como é usado no roteiro de cinema.
    (V.O) ou (O.S) são aceitos para substituir a legenda?
    E se esses e outro recusos tecnicos de cinema podem ser usados em HQ?
    Grato.

    • zaphq says:

      Não, não substitui. Isso acontece porque o V.O. e o O.S. são usados para personagens que falam, mas que não aparecem no quadro; como naqueles balões que vemos o rabo indo para um dos limites do quadro, indicando que o personagem está na cena, só não está sendo visualizado.

  5. Ramon dos Santos says:

    Obrigado.
    Foi bem esclarecedor.
    =]

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