Aula de Roteiro 21 – Guerra das Armaduras – Parte 1

Uma coisa no qual sou focado é em criar um paradigma que seja redondinho, que não dê margem para páginas/capítulos quebrados. Por exemplo, ter uma história com 5 páginas de apresentação e outras 5 de resolução e 10 para confrontação, totalizando 20 páginas e história.

Porém, às vezes lidamos com editores que tem suas preferências ou situações – verba limitada, entre outras – que forçam o editor a tomar uma decisão que envolve criar uma história em que a estrutura terá páginas quebradas. O que seriam páginas quebradas? É quando temos um valor para estruturar o paradigma que cai no uso de uma vírgula. Por exemplo:

HISTÓRIA COM 66 PÁGINAS

Apresentação: 1/16,5

Isso significa que temos uma apresentação que vai da página 1 até a página 16,5. O problema é: você coloca o Ponto de Virada 1 na página 16 ou na página 17, invadindo um pedaço do Ato II? Sacou qual é o problema? Esse mesmo número quebrado repercutirá no resto do roteiro, como pode ver abaixo em como fica os Atos II e III.

Confrontação: 16,5/49,5
Resolução: 49,5/66

A solução mais óbvia é fazer isso mesmo: algum ato terá que ficar ligeiramente maior. Uma página ou duas no máximo. Mas imagino que você esteja com dificuldades de visualizar a coisa toda. Dessa maneira, resolvi analisar uma história clássica do Homem de Ferro, recentemente relançado pela Panini: Guerra das Armaduras.

Nesta aula analisaremos como Guerra das Armaduras foi estruturada em torno de suas 174 páginas de história.

As 174 páginas forma divididas em 7 edições, sendo que o número de páginas ficou assim:

CAPÍTULO 1: 40 PÁGINAS

CAPÍTULO 2: 23 PÁGINAS

CAPÍTULO 3: 22 PÁGINAS

CAPÍTULO 4: 23 PÁGINAS

CAPÍTULO 5: 22 PÁGINAS

CAPÍTULO 6: 22 PÁGINAS

CAPÍTULO 7: 23 PÁGINAS

Vamos ver como fica mexer no paradigma com as informações que temos acima. Decidiram que seriam 7 capítulos. É um número ímpar, o que não ajuda quando é preciso ter um número redondo. No capítulo 1 temos 40 páginas. Ás vezes, em inícios de grandes arcos, as editoras americanas tem o hábito de fazer edições chamadas “Giant-size” como forma de chamar a atenção, criar um marketing maior e, também, desenvolver melhor uma história. Isso também não ajuda, pois com números seguintes contendo menos páginas, já faz com que outra quebra no paradigma se inicie.

Em seguida temos capítulos com números de páginas diferentes, sendo alguns com 22 e outros com 23 páginas. Esse é mais um detalhe que prejudica estruturar o paradigma como um todo. O número tradicional de páginas no sistema americano são 22, mas alguns editores não ficam plenamente satisfeitos com um roteiro e pedem para que um capítulo tenha uma página a mais, que é o máximo que podem fazer sem mexer no custo da HQ, o que seria convertido em um aumento no preço da revista. O aumento de uma página em determinados capítulos pode ajudar a colocar mais detalhes, dar mais ênfase em certas informações que precisam ser passadas, mas por outro lado tem este entrave.

Tudo isso colabora para que o paradigma fique confuso. Tudo piora quando você lembra que cada capítulo tem seu paradigma interno, com seus pontos de virada menores, que ajudam a estrutura da história do arco em si.

Mas imagine: você foi contratado por uma editora, este é o espaço que você tem disponível, o editor pediu que fosse com esse número de páginas e capítulos. E aí, como você faz?

Pessoalmente, prefiro ter 24 páginas em cada capítulo, fazendo com que eu tenha 6 páginas de apresentação, 12 de confrontação e mais 6 de resolução. Para o arco, eu prefiro 4, 8 ou 12 edições. Esses números fazem com que tanto o paradigma do arco quanto dos capítulos casem de forma perfeita, sem números quebrados. Se duvida, é só fazer os cálculos.

Porém, como disse antes, o editor quer de outra maneira e é você que precisa resolver para contar a melhor história possível.

Agora, vamos ao capítulo 1.

ATO I

“A GUERRA DAS ARMADURAS”

O nome do capítulo 1 é o nome do arco em si. E temos que lembrar que esse capítulo tem 40 páginas, o que nos dá 10 páginas de apresentação, 10 para a resolução e 20 para a confrontação.

O capítulo começa com Tony usando a última versão de sua armadura, a vermelha e prateada, batizada de “Centurião Prateado”. Ele a está usando durante uma apresentação de aparatos militares devido a um acordo com o governo americano. Após o sucesso da apresentação, Tony volta para a sede de sua empresa e começa a analisar a armadura de um hoje ex-inimigo, o Força. Ficamos sabendo que ele se regenerou e entregou sua armadura para Tony.

E é aí que acontece a apresentação do que Tony precisa fazer. Ao analisar a armadura de seu ex-inimigo, Tony descobre que foi utilizada uma tecnologia criada por ele, que nunca divulgou a ninguém e sequer foi patenteada. Ele precisa saber como descobriram a existência dessa tecnologia, quem fez isso e se ainda há mais por aí. Em uma das aulas anteriores, vimos que precisamos manter nossa linha de criação de histórias de maneira simples. E essa apresentação faz isso e de forma que cria três perguntas. Uma apresentação eficiente é assim: cria mais do que uma pergunta a ser respondida, mais de um problema a ser resolvido. E ainda por cima, é simples.

Em seguida, Tony conversa com seu braço direito, James Rhodes, sobre o ocorrido. A conversa mostra tudo que falei no parágrafo anterior de forma perfeita e ainda apresenta seus possíveis oponentes – o que ocorre na página 9 (página 15 do encadernado da Panini).

Na sequência temos uma conversa rápida entre Tony e Rhodes com a namorada deste, a srta. Pearson. Ela é a relações-públicas de Stark. É importante colocá-la aqui porque temos que apresentar a personagem como parte integrante do arco. Isso é necessário porque durante a saga, Tony terá que tomar decisões difíceis que colocarão em jogo seu nome e o de sua empresa. Dessa maneira, a srta. Pearson é mais uma pressão que aparecerá na vida de Tony conforme ele tenta resolver o problema da tecnologia vazada.

Tony e Rhodes estavam indo a um encontro com Clay Wilson, o Força. E ocorre o seguinte diálogo:

Tony: De onde veio a tecnologia de sua armadura?
Wilson: Bom, eu mesmo desenvolvi o grosso do protótipo…
Tony: Mas os designs avançados foram fornecidos pelo (Justin) Hammer, certo?
Wilson: Não faço idéia de onde ele conseguiu, mas…
Tony: Obrigado, Clay. Isso é tudo.

Essa diálogo é o ponto de virada 1 do capítulo. Tony precisava saber se sua tecnologia poderia ter vazado para inúmeras outras fontes. De quem tinha sido ação de espionagem industrial. E ao ter essa conversa, Tony sabe que não há outra maneira, ele precisa agir para resolver tudo.

ATO II

Tony continua muito preocupado com o ocorrido e Rhodes o lembra de outro evento de demonstração de tecnologia que demanda a participação do Homem-de-Ferro. Os dois acham que a apresentação pode ser um evento que ajude a esfriar a cabeça de Tony. Porém, durante a apresentação, Tony não para de pensar no ocorrido e revê sua trajetória – acompanhamos em flashback – de maneira que ele precisa de um direcionamento em sua vida. Só que Tony sem pensar, estravaza e exagera na demonstração, destruindo dois tanques de guerra de última geração, protótipos de um novo projeto do governo. Esse é o gancho I. Aqui é o primeiro estouro de Tony, fato que irá se tornar uma bola de neve, gerando cada vez mais problemas.

Consequentemente Tony tem uma reunião com a srta. Pearson para minimizar os danos financeiros e morais que Tony causou durante a apresentação.

Tony percebe então que precisa realmente relaxar, que tudo isso está deixando-o nervoso demais. A saída foi ter um encontro com uma de suas inúmeras pretendentes. Ambos vão ao cinema assistir a um filme de guerra. Só que o filme traz lembranças a Tony da época em que ele se feriu e que o levou a ser o Homem-de-Ferro. Hoje Tony odeia guerras e tenta fazer de sua empresa uma construidora da paz e não de conflitos. Tony pede desculpas à moça e vai embora. Depois disso, vemos também que Rhodes também anda um pouco estressado quando leva sua namorada para casa.

Logo depois disso, Tony tenta dormir, mas não consegue, chegando levemente a perder o controle ao telefonar para Wilson e provocá-lo. O problema está abalando-o mais do que o normal. Essa provocação a Wilson é o ponto central. É a segunda pista – a primeira, Tony ter destruído os tanques de guerra – sobre o que se trata a história: Tony ser puxado além de seus limites. Tony não dorme e no dia seguinte segue com Rhodes para a Accutech, subsidiária de sua empresa. Durante o caminho, Rhodes o questiona sobre o que ele quer fazer: espionagem industrial contra as Indústrias Hammer da mesma maneira que fizeam com ele. É ilegal e, por mais que ele esteja no direito de investigar sobre o que aprontaram com ele, continua sendo errado. Porém, Tony não tem outra saída. As maneiras legais demorariam demais e mais pessoas poderiam ser feridas ou mortas por algo que ele criou.

Esse diálogo é algo forte no capítulo. Ali é o prenúncio de que Tony terá que ultrapassar certas linhas morais para conseguir o que quer.

Tony e Rhodes na Accutech, conversando com Abe Zimmer, especialista em computação, sobre vasculhar dados das Indústrias Hammer. Zimmer diz que sozinho nada poderá fazer e que é preciso contar com um especialista em eletrônica para ajudar a burlar o sistema de segurança digital deles. Tony pensa em alguém e lembra de Scott Lang. A medida sai melhor do que imagina, pois Tony não sabe que Lang é o atual – naquela época, claro – Homem-Formiga.

Lang aceitar ajudar Tony é o gancho II.

Embora inicialmente reticente, Lang é convencido por Stark a ajudá-lo. Com o trabalho combinado de Lang e Zimmer, Stark consegue boa parte das informações que queria.

ATO III

A mais evidente fica por conta do envolvimento de um vilão chamado Espião-Mestre. A descoberta do envolvimento do Espião-Mestre é o ponto de virada II. Agora Tony sabe como Hammer conseguiu as informações dos projetos dele. Imediatamente Tony aciona seu departamento jurídico. Ele quer Hammer processado o mais rápido possível.

Logo em seguida, como Homem-de-Ferro, Tony enfrenta o Metalóide, antigo inimigo do Demolidor. O “combate” é injusto e Tony já inutiliza a armadura do vilão com um dispositivo que causa um leve pulso eletro-magnético que só funciona com a tecnologia roubada dele. Metalóide é o primeiro fora do jogo.

Ao voltar para as Indústrias Stark, Tony recebe a notícia de seu advogado-chefe de que as provas que ele possui foram obtidas ilegalmente e que não poderão ser utilizadas em um processo. Tony começa a ficar mais nervoso com isso.

Depois, Tony vai atrás de Brendan Doyle, o Mauler. Doyle entrega a armadura sem resistência, pois sabe que seria idiotice lutar contra o Homem-de-Ferro. Agora são menos dois. Na sequência, Tony Vai atrás do Controlador, que está manipulando pessoas através de um culto religioso. Tony consegue inutilizar sua armadura e vai embora. Ao voltar para seu escritório, Tony recebe a notícia de que haverá um processo judicial contra Hammer, baseado no fato de que seus direitos civis foram violados quando roubaram as invenções sem patente. O problema é que a primeira audiência é em dois anos. Tony fica possesso e vê que não adianta mesmo tentar resolver isso através da lei. Ele terá mesmo que ultrapassar alguns limites.

O capítulo 1 termina neste ponto. O problema é que o Ato I do arco tem 43,5 páginas. Isso fará com que 3,5 páginas do Ato I façam parte do início do capítulo 2, tema de nossa próxima aula. Até lá!

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