Aula de Roteiro 09

Como prometido, nesta aula, ao invés de analisarmos uma obra do cinema, como “Chinatown”, começamos a analisar uma obra das HQs. Refiro-me ao arco chamado “Nova Ordem Mundial”, da Liga da Justiça de Grant Morrison. Esse arco foi a estréia do escocês com a maior equipe de super-heróis de todos os tempos.

Embora Morrison raramente seja simples no que escreve, “Nova Ordem Mundial” tinha a função de ambientar a nova Liga da Justiça, mostrando aos leitores qual seria a nova cara cada equipe. Sendo assim, perto do que faria depois, “Nova Ordem Mundial” beira à simplicidade mesmo, mas nem por isso deixa de ser empolgante.

Nesse arco, a recém-formada Liga da Justiça contendo apenas os medalhões da editora depara-se com a ameaça de uma equipe de extraterrestres que muda o mundo de forma que a Liga nunca pôde – ou nunca quis – ganhando a simpatia da população. Porém, mal sabe a LJ – e também o mundo – que os tais “bem-feitores” são marcianos brancos querendo dominar o planeta. É uma trama que, ao primeiro olhar, é batida, podendo cair na mesmice na mão de qualquer outro roteirista. Mas como sempre os roteiristas se perguntam ao se deparar com esse tipo de coisa, “qual a novidade que posso mostrar a um tema já visto milhares de vezes antes?”

O tema de invasão alienígena já foi visto das mais diversas formas. Se alguém consegue mostrar um novo ponto de vista, parabéns. Por enquanto, vamos ver porque um escritor conceituado como Morrison escolheu uma linha de argumento tão batida para sua estréia com a equipe.

A LJ vinha de algumas formações não muito consistentes. A DC, querendo tornar sua equipe realmente grande como sempre disse que era, chamou Morrison, talvez na época, o único que pudesse ter a mão pra isso, a ser o chefe da reformulação do título. Para isso, ele exigiu apenas os medalhões: Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Flash, Lanterna Verde, Aquaman e Ajax. Esses personagens nunca estiveram todos numa mesma equipe antes e ver a dinâmica entre eles e como seria o futuro da equipe era primordial. Sendo assim, o primeiro arco teria que ser uma apresentação geral. Em outras palavras, em “Nova Ordem Mundial”, Morrison mostra o leitor o que o espera pelos próximos arcos até o fim de seu contrato.

E que tipo de trama funcionaria perfeitamente como uma apresentação das características da equipe? Uma invasão alienígena, naturalmente. O intuito do escocês não foi criar uma obra marcante demais e nem que o arco entrasse para o hall de seus grandes trabalhos – ainda mais visto o que ele fez nos arcos seguintes com a equipe, fora seus outros trabalhos. Era a pura e simples apresentação mesmo.

Tendo isso em mente, vamos ver as características de “Nova Ordem Mundial”: arco em 4 edições, o que significa que teremos 1 edição para Ato I; 2 edições para o Ato II e, consequentemente, 1 edição para o Ato III. Isso preenche o esquema do paradigma de 25%/50%/25%. Obviamente, o Ponto de Virada I fica no final da 1ª edição e o Ponto de Virada II fica no final da 3ª edição.

NOVA ORDEM MUNDIAL – 1ª EDIÇÃO

Ato I

Como visto em uma aula anterior, temos o Paradigma do arco, que é o explicado acima, mas também temos o paradigma para cada edição; de modo que cria-se sub-pontos de virada que auxiliam – mas não são mais forte que – os pontos principais, que são os Pontos de Virada I e II do arco. Isso faz com que cada edição tenha seus Pontos de Virada I e II, criando a sensação de montanha-russa em todo o arco.

A personagem principal do 1º arco da LJ de Grant Morrison não é nenhum dos heróis. É Protex, líder do Hyperclan, que é como os marcianos brancos se disfarçam para aparecer na Terra. Se Protex não decide invadir a Terra, não tem estória. São as ações dele em nosso planeta que fazem a LJ se mexer; primeiramente acompanhando as tais maravilhas feitas por seus camaradas e depois de descoberta a verdade, é lutando contra eles. A LJ apenar reage contra Protex e seus irmãos.

Alguém pode perguntar algo como “Mas se Protex é a personagem principal do arco, por que ele aparece menos do que boa parte dos heróis da Liga?”

Há uma linha de pensamento enganosa que diz que todo personagem principal é aquela que precisa aparecer mais ou que tem seu nome na capa.

Errado.

Veja “Branca de Neve e Os Sete Anões”. A personagem principal não é Branca de Neve. É a Rainha Má. Ela quer – seu objetivo – ser a mais bela do mundo. E por um determinado tempo ela é. Até que a Branca nasce, cresce e se torna belíssima. Quando descobre a existência dela – o Ponto de Virada I – começa a fazer de tudo para matar a pobre menina. E assim vai.

Caso a Rainha Má não ligasse mais para o fato de ser a mais bela ou se ela por algum outro motivo nem quisesse fazer nada contra a Branca, não teríamos estória. E Branca continuaria lá, com seus afazeres e com seus passarinhos, sem ser ameaçada, sem conhecer os anões, entre outros detalhes dessa clássica estória. O mesmo acontece no caso de “Nova Ordem Mundial”. Além do mais, a personagem principal também pode ser apresentada sem que apareça fisicamente no Ato I, como visto em “Cidadão Kane”. Conhecemos Kane através das conversas entre outras personagens e através do rádio e dos jornais. No início da 1ª edição, Morrison faz o mesmo com Protex.

As cidades marcianas foram destruídas. A civilização marciana não mais existe. Não há mais condições de morar em Marte. Mas se Ajax era o único, onde estavam esses marcianos brancos? Em um lugar chamado Zona Estável, onde foram presos pelos marcianos verdes após serem punidos por interferir na vida de outro planeta no passado. Que planeta? A Terra. Descobrimos isso na 4ª edição, mas coloco aqui apenas para mostrar onde eles estavam antes do início de “Nova Ordem Mundial”.

No começo da 1ª edição vemos a Casa Branca. O Presidente está conversando com um de seus acessores sobre problema em relação a uma pequena, fictícia e problemática nação latina. Durante a conversa, a primeira pista: Águia Flamejante perdeu seus poderes ou “algo assim”. Ela seria a acompanhante meta-humana do Presidente nessa questão. Enquanto a conversa se desenrola, uma nave alienígena, ao estilo Independence Day, paira do nada sobre a Casa Branca, alertando os EUA. Consequentemente, chamam a LJ.

Enquanto a Liga está para chegar, vemos uma mini-estação espacial em órbita da Terra. Lá dentro estão Metamorfo, Nuklon, Dama do Gelo e Manto Negro. Eles estão preparando alguns equipamentos para que a nova Liga da Justiça possa começar a operar desde já. Enquanto fazem isso, detectam a nave alienígena, que teria passado pelos sensores deles sem problema algum, o que os deixa espantados. Conforme a conversa sobre a nave se desenrola, vem a confirmação da primeira pista: Dama do Gelo diz que “Fogo não vem porque perdeu os poderes ou ficou doente”. Fogo e Águia Flamejante tem poderes baseados no Fogo. Morrison está mostrando que algo já estava sendo feito para prevenir os marcianos brancos contra sua maior fraqueza. Essas pistas já apresentam, sem revelar diretamente, quem é a nova ameaça. Em uma primeira leitura, tais informações ajudam ainda a confundir o leitor. Naquela época, de marciano, só existia o Ajax. Não se sabia que marcianos brancos ainda estavam vivos. Mesmo que alguém pense na hipótese de marcianos, seria facilmente descartada por qualquer um. Essas duas pistas já dão uma das características de Protex – a personagem principal – e seus companheiros.

Rapidamente, o primeiro a chegar na Casa Branca é Superman. Morrison sabiamente escolhe que ele seria o primeiro da nova LJ a aparecer, afinal, ele é o suporte moral da equipe. Lá, Superman está para dar assistência diplomática e ainda cuidar da segurança de todos, pois não sabem de onde vem a nave, se será um contato amistoso ou hostil. E eis que de “ovos tecnológicos” depositados pela nave saem os integrantes do Hyperclan, alegando que vieram “salvar o mundo”.

Todo esse pedaço perfaz o Ato I da 1ª edição e o Ponto de Virada I. Mas como?

Cada edição tem 22 páginas. Desse modo, o paradigma de cada edição fica assim:

Ato I – 25% = 5,5 páginas

Ato II – 50% = 11 páginas

Ato III – 25% = 5,5 páginas.

Então o Ato I tem que ser apresentado até o meio da quinta página, que é onde o Ponto de Virada I do capítulo – mas não do arco – deve ser mostrado.

A descrição dos acontecimentos acima corresponde às cinco primeiras páginas do 1º capítulo. O Ponto de Virada I é quando Protex aparece fisicamente com seus companheiros dizendo que vai melhorar o mundo. Embora ele ganhe a atenção e a simpatia do mundo conforme veremos adianta, essa apresentação “calorosa demais” fará com que os membros da nova LJ fiquem desconfiados. A apresentação que Protex faz chama atenção demais e, com certeza, serão investigados pelos heróis. Por isso a apresentação é o problema que Protex terá que enfrentar para fazer seu plano seguir adiante. Antes disse, a nave está lá, as pistas sobre heróis baseados em fogo estão lá, ou seja, indiretamente e discretamente, Protex foi apresentado.

Ato II

Na sequência já vemos a reação da população ao Hyperclan através dos telejornais. Através deles, os membros da LJ apenas acompanham as ações dos novos visitantes. Os telejornais mostram a desculpa de Protex: eles são alienígenas cujo mundo foi abusado por eles, de forma a ficar inabitável e que agora eles vagam pelo universo promovendo mudanças para melhor em vários mundos para que a esterilidade planetária não seja razão de sofrimento de mais nenhum ser vivo.

Logo em seguida, os telejornais já mostram o Hyperclan promovendo as tais mudanças, como por exemplo, tornar apto para plantação um solo antes inutíl. A primeira reação contrária vem de Superman, que na frente de todos os jornalistas, avisa que tais mudanças podem ser apenas cosméticas  e que mexer demais e muito rápido com a natureza pode ser desastroso demais. Dessa forma, ele apenas pede que o Hyperclan vá com calma a fim de que tudo seja realmente bom para a humanidade e que as pessoas tenham calma com as mudanças que o Hyperclan vem fazendo. Os jornalistas acabam interpretando mal o grande herói, tornando-se contra as alegações dele. Protex, habilmente usa tal acontecimento a seu favor, dizendo aos jornalistas para “não serem injustos com o Superman”, fazendo com que ele fique com uma fama ainda maior de “salvador” do que o herói de Krypton. Superman foi claramente usado como muleta para o leitor.

Cortamos para outra hora e lugar. Um supervilão X é executado pelo Hyperclan. Isso mostra que as mudanças não se restringem ao mundo físico, mas que eles querem acabar de vez com o mal, começando pela criminalidade. Na verdade, os marcianos, ao usar de sentença de morte para eliminar criminosos, dá a falsa sensação de segurança para a população ao mesmo tempo que elimina possíveis ameaças. Com tal execução, os crimes meta-humanos caem vertiginosamente, mesmo em Gotham City, como mostra a imprensa.

De volta à mini-estação onde estavam Metamorfo, Manto Negro e cia, o Lanterna Verde Kyle Rayner está com a Mulher-Maravilha acompanhando a transição dos recursos para a equipe ao mesmo tempo que conversam sobre o Hyperclan. Rapidamente, a estação é invadida por uma ameaça desconhecida. São seres humanóides em trajes espaciais. Em nenhum momento tempo pistas de quem são. Os heróis desconfiam do Hyperclan, mas não há confirmação alguma. Sabemos apenas que são poderosos, pois atravessam sem dificuldade o casco da estação. Como apenas o Lanterna pode respirar no espaço graças a seu anel, ele retarda os invasores com a ajuda da Mulher-Maravilha para que os outros heróis consigam fugir antes de morrerem asfixiados.

Enquanto Lanterna e Mulher-Maravilha combatem no espaço, Metamorfo tem uma idéia completamente suicida, executando-a e salvando seus companheiros, mas ficando completamente inerte.

O Ponto de Virada II vem agora: Ao mesmo tempo que vemos Metamorfo agindo, em outra parte vemos Protex trazendo à tona um maquinário alienígena escondido em alguma parte de nosso planeta. Essa é a indicação de que os marcianos já estiveram aqui antes, como será mostrado no capítulo 4. Além disso, esse maquinário é a futura base do Hyperclan, que será usada mais tarde para aprisionar a Liga. Sem essa base, que contem uma máquina chamada “Flor da Ira”, seria impossível capturar os heróis. Como sabemos que o Ponto de Virada II é “acontecimento que salva ou condena a personagem principal”, a ativação dessa base é que permitirá que Protex siga adiante com seus planos.

Ato III

Imediatamente a nova LJ começa a se juntar para conversar sobre o Hyperclan. Mais uma vez, através dos jornais, vemos que a população abraça cada vez mais a existência do Hyperclan e que por algum motivo não muito claro, a LJ estaria para iniciar um confronto com os alienígenas. Conforme Superman, Lanterna Verde e outros conversam sobre o atentado à estação espacial, Batman revela sua presença e descobre durante o diálogo que o Hyperclan está usando de táticas de controle mental. Resumindo, agora sabem que é uma invasão e vão partir para o contra-ataque.

Assim acaba o 1º capítulo de “Nova Ordem Mundial”.

Como comentei antes, o Ponto de Virada I do arco é o final da 1ª edição. Qual seria esse acontecimento? É Batman descobrindo que é uma invasão de verdade e declarando guerra. Protex não conseguiu segurar um de seus segredos durante muito tempo.

Protex veio, se apresentou, disse que ele e seus companheiros estariam na Terra para melhorar o planeta. Ele começou a promover falsas mudanças para ludibriar a população enquanto que seus companheiros começavam por detrás dos panos a cuidar dos seres superpoderosos da Terra. A Liga apenas acompanhou tudo e colheu dados e informações. Batman foi a cereja do bolo.

Lendo isso, fica clara a apresentação do arco na 1ª edição, com seu Ponto de Virada I.

Na próxima aula veremos a 2ª edição de “Nova Ordem Mundial”.

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2 Responses to Aula de Roteiro 09

  1. Emílo.

    Muito boas as aulas. Todas elas.
    Iniciativas como a sua são muito importantes para pessoas como eu, que vivem longe de grandes centros e que por isso não têm acesso a cursos.

    Obrigado.

    Ah! Fico aguardando a análise de algum roteiro do Alan Moore que é, afinal, “o cara” quando falamos de roteiros de HQs.

  2. Joe de Lima says:

    Ótima análise! Eu acho que Morrison é um dos melhores da atualidade!

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