Aula de Roteiro 08

Eis que continuamos com a análise de “Chinatown”, clássico do cinema e grande roteiro escrito por Robert Towne. Quem quiser a versão em português do trecho do roteiro do filme, mande e-mail para emiliobaracal@gmail.com

“Sabe de uma coisa, Jake?”, Curly diz a Gittes na página 3, “Acho que vou matar ela (sua esposa)”.

Gittes responde com os diálogos proféticos que ilustram o ponto de vista de Towne. Você tem que ser rico pra matar alguém, qualquer um, e livrar-se disso impune. “Você acha que tem esse tipo de grana, que tem esse tipo de classe?” – Ironicamente, essa foi uma das cenas cortadas quando o filme foi adaptado para a TV americana.

Curly certamente não pode escapar impune do assassinato, mas Noah Cross (John Huston), pai de Evelyn Mulwray e ex-chefe do Departamento de Água e Energia ao mesmo tempo em que Hollis Mul­wray, pode e escapa. O final do filme mostra John Huston carregando sua filha/neta para a escuridão da noite após Faye Dunaway ter sido morta tentando escapar. Esse é o ponto de vista de Towne: “você tem que ser rico para matar alguém, qualquer um, e livrar-se disso impune.”.

Isso nos leva ao “crime” de “Chinatown”, um esquema baseado no escândalo da água conhecido como A Violentação do Vale Owens. Esse é o pano de fundo de “Chinatown”.

Em 1900, a cidade de Los Angeles, uma “comunidade no deserto” como um ex-prefeito de lá cos­tuma sempre lembrar, crescia e se expandia tão rápido que literalmente não tinha água. Se a cidade quisesse sobreviver, teria de encontrar outra fonte de água. L.A. é vizinha do Oceano Pacífico. As pessoas podem nadar nele, podem pescar, velejar nele, mas não podem beber dele, não podem regar seus gramados com ele e não podem irrigar um laranjal com ele.

A água mais próxima de L.A. é o rio Owens, localizado no Vale Owens, uma área verde e fértil a cerca de 250 milhas a nordeste de Los Angeles. Um grupo de negociantes, líderes comunitários e políti­cos – alguns os chamam de “homens de visão” – enxergaram a necessidade de água e conceberam um esquema maravilhoso. Eles adquiriram os direitos sobre as águas do rio Owens, pela força se necessário, e depois compraram toda aquela terra sem valor no Vale San Fernando, cerca de 20 mil­has afastado de L.A. Eles emitiriam então um bônus que levantaria fundos para a construção de um aqueduto desde o Vale Owens, através de 250 milhas de deserto escaldante e montes recortados, até o Vale de San Fernando. Eles venderiam a agora “fértil” terra do Vale de San Fernando para a cidade de Los Angeles por uma enorme soma de dinheiro; cerca de 300 milhões de dólares.

Esse era o plano. O governo conhecia, os jornais sabiam dele, todos os políticos locais tinham con­hecimento dele. No tempo certo, as autoridade “influenciaram” o povo de Los Angeles a aprovar a emissão dos tais bônus.

Em 1906, uma seca assolou Los Angeles. As coisas ficaram ruins, depois pioraram. As pessoas foram proibidas de lavar seus carros ou regar seus gramados; não podiam dar descarga no vaso sanitário mais que umas poucas vezes ao dia. A cidade secou; flores morreram, gramados amarelaram e man­chetes assustadoras estampavam “Los Angeles morre de sede!” “Salvem nossa cidade!”

Para ressaltar a necessidade drástica de água durante a seca e para assegurar que os cidadãos aprovariam a emissão dos bônus, o Departamento de Água e Energia despejava milhares de litros de água no oceano.

Na hora de votar, a emissão dos bônus foi aprovada facilmente. Levaram vários anos para completar o aqueduto do Vale Owens. Quando ele foi finalizado, William Mulholland, então chefe do Departamento de Água e Energia, entregou a água para a cidade: “Aí está ela”, ele disse. “Podem pegá-la.”

Los Angeles floresceu e cresceu como um incêndio, o vale Owens definhou e morreu. Não admira que isso tenha recebido o nome de A Violentação do Vale Owens. Robert Towne pegou esse escândalo que ocorreu em 1906 e usou-o como pano de fundo em Chinatown. Ele mudou o período da virada do século para 1937, quando os elementos visuais de Los Angeles tinham a aparência clássica e distinta do sul da Califórnia.

O escândalo da água é tramado através do roteiro, e Gittes o descobre uma parte de cada vez. Eis porque é um grande filme. “Chinatown” é uma viagem de descoberta. Descobrimos as coisas ao mesmo tempo em que Jake Gittes. Público e personagem estão liga­dos, reunindo pedacinhos e retalhos de informação, e os montando ao mesmo tempo. É uma história poli­cial, afinal.

Syd Field, conhecidíssimo professor de roteiro e con­sultor em Hollywood passou bastante tempo analisan­do o roteiro de “Chinatown”. Quando soube que um escândalo da vida real havia sido usado como pano de fundo para o ponto de vista de Robert Towne para uma história policial, ele decidiu que deveria saber mais sobre o Vale Owens. Ele então pesquisou a pesquisa de Towne. Descobriu as origens, anteced­entes e fatos do escândalo do Vale Owens. Da próxima vez que ele leu o roteiro e assistiu ao filme, era como se estivesse vendo pela primeira vez.

O escândalo de água que Noah Cross concebe e executa, o crime que causa as mortes de Hollis Mul­wray, Leroy o bêbado, Ida Sessions e finalmente Evelyn Mulwray, o escândalo descoberto por Jake Gittes, é tramado com grande sutileza e habilidade através de todo o roteiro.

E Noah Cross livra-se sem responder ao assassinato.

Tudo isso é estabelecido e apresentado na página 8, quando Gittes está na câmara do conselho e ou­vimos Bagby argumentando que “oito milhões e meio de dólares é um preço justo a pagar para manter o deserto longe de nossas ruas – e não em cima delas”.

Mulwray, o personagem baseada em William Mulholland, replica que o local do dique é inseguro, como ficou provado com a catástrofe de Van der Lip, e diz, “Não vou construí-lo. É simples assim – não vou cometer o mesmo tipo de erro duas vezes”. Ao recusar-se a construir o dique, Hollis Mulwray tornou-se alvo para assassinato; ele é um obstáculo e deve ser eliminado.

De novo, na página 10, a questão dramática do roteiro é levantada: “Você rouba a água do Vale, ar­ruína os pastos, faz meu rebanho morrer de fome” – grita o fazendeiro que invade as câmaras. “Quem lhe paga para fazer isso, Sr. Mulwray, é o que eu quero saber!”

Gittes também quer.

Esta é a questão que conduz o filme para sua res­olução final e é inteiramente apresentada desde o início, nas primeiras dez páginas, e move-se numa direção linear até o fim.

Ao introduzira Personagem Principal, estabelecer a premissa dramática, criar a situação dramática, o roteiro movimenta-se com precisão e habilidade para sua conclusão.

“Ou você traz a água para L.A. ou leva L.A. até a água”, Noah Cross diz a Gittes.

Esse é o fundamento de toda a história. É o que a faz tão boa. Simples assim.

Na próxima aula, análise de uma estória de Grant Morrison, para ver como tudo se aplica às HQs.

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