Aula de Roteiro 06

Agora você conhece a parte básica da estrutura, do paradigma. Está na hora de começar a descobri-la profundamente.

DISSECANDO O ATO 1

Por incrível que pareça, a parte mais importante em um roteiro/livro não é o fim. É o começo.

No caso de um roteiro de cinema, mas especificamente, as dez primeiras páginas. Imagine que temos um filme cujo Ato 1 preenche 30 páginas/minutos. Nós dividimos o Ato 1 em três partes iguais. Dessas, a mais importante é a primeira parte.

A primeira razão pra isso é puramente prática: produtores tem pilhas e pilhas de roteiros para ler. Dezenas, normalmente. Centenas, às vezes. Imagine ler e analisar tudo isso. É muita coisa.

Dessa forma, você deve ganhar a atenção do produtor nas dez primeiras páginas. Eles só lêem as dez primeiras páginas. E se nelas você ganha a atenção do produtor, com certeza o resto do seu roteiro é bom de ser lido e, provavelmente, aprovado para produção. Produtores, devido à prática que possuem em ler roteiros, já viram de tudo. Eles conhecem todos os tipos de estórias, idéias, argumentos. E se você apresenta algo diferente e instigante, já é meio caminho andado para uma reunião ser marcada entre você e ele.

A segunda razão pela qual as dez primeiras páginas são as mais importantes é porque é esse tempo (dez minutos) que as pessoas geralmente levam pra perceber – na grande maioria das vezes, de forma inconsciente – se estão gostando ou não de um filme. Isso já foi alvo de estudo de produtores, diretores e roteiristas. Se duvida, vá assistir a um filme que nunca viu, coloque o despertador pra tocar dali a dez minutos e quando ouvir o sinal, pause a película. E pense sobre o que está sentindo em relação ao que está vendo.

Mas se não está satisfeito com a resposta, aí vai algo mais concreto ainda: toda estória faz uma promessa ao leitor/espectador. Atualmente, duas promessas, uma emocional e outra, intelectual. Com base nisso, a função de uma estória é nos fazer sentir e pensar.

A promessa emocional é: “Leia/assista isso e você será entretido ou espantado ou aterrorizado ou fragilizado ou entristecido ou se sentirá nostálgico, mas de qualquer maneira, será absorvido”.

E há três versões para a promessa intelectual:

1 – “Leia/assista isso e você verá o mundo com um diferente ponto de vista”.

2- “Leia/assista isso e você terá confirmado algo em que acredita sobre este mundo”.

3 – “Leia/assista isso e você aprenderá sobre um mundo diferente e mais interessante do que o real”.

No tempo que uma pessoa inconscientemente leva para perceber se curte ou não seu filme, ela percebe implicitamente o que está prometendo.

Um meio de estória satisfatório é aquele que entrega algo de diferente, inesperado e interessante. Um fim de estória satisfatório é aquele que cumpre a promessa, promove novas idéias ou uma confortável confirmação ou uma viciante felicidade.

Mesmo quando é surpreendente de alguma maneira, o fim é inevitável porque preenche a promessa da estória. E isso é importante porque um fim bem feito completa a promessa feita no começo do roteiro. Em outras palavras, o meio e o fim são muito dependentes do começo.

Em sua cena de abertura, o foco é manter seu público interessado. Tem que acontecer uma primeira cena forte, interessante, diferente ou inesperada. Há quatro elementos para que consiga criar algo assim nos seus dez minutos: personagem, conflito, especificidade e credibilidade.

ATO 1 – OS DEZ PRIMEIROS MINUTOS – PERSONAGEM

Sua cena de abertura deve ter uma personagem que precisa chamar a atenção do público e fazer com que ele continue interessado.

Personagem é alguém que faz, não alguém que fala. Caso fosse alguém que falasse, teríamos algumas personagens em volta de uma mesa – ou qualquer outro lugar que possa imaginar – apenas falando. Alguns roteiristas são capazes de prender a atenção das pessoas apenas com algumas personagens falando, mas são raríssimos os que desenvolvem alguma habilidade narrativa com isso.

E para entender melhor uma personagem, é preciso entender o conceito de “ação”, roteiristicamente falando. Em um roteiro, “ação” não é sinônimo de tiros, lutas, explosões e afins. “Ação” é um termo para qualquer ato que uma personagem esteja fazendo. Um preso escrevendo uma carta para sua família em uma cela é uma ação. Escrever a carta é o ato que ele desempenha. Um ciclista que está tentando colocar de volta a corrente de sua bicicleta, que se soltou, é uma ação.

As ações definem uma personagem.

Um exemplo disso ocorre na vida real. Quantas pessoas que você conhece que na frente dos outros falam uma coisa, mas por trás fazem outra? Tomando esse exemplo, mais uma vez, personagem é aquela que faz e não aquela que fala. A ação mostra a real intenção e caráter de alguém.

A ação é, portanto, a matéria básica do roteiro.

E podemos definir a ação como todo e qualquer movimento – não necessariamente físico – que é fruto de uma vontade e que visa um determinado objetivo. Nem todo movimento realizado é uma ação. Para que o seja, é preciso que esse movimento resulte no alcançar de um objetivo conhecido pelo sujeito. Se você vai até a cozinha, enche um copo com água gelada e bebe, seu objetivo foi matar a sede através do movimento de ir até a cozinha, abrir a geladeira, pegar a garrafa, pegar o copo, encher, tomar e mandar pra dentro. Houve ações.

A ação humana tem uma raiz imaterial. Origina-se naquilo que há de mais alto e nobre no homem, no que tradicionalmente denomina-se de “espírito” – vontade e inteligência. A vontade quer alcançar um bem que é conhecido pela inteligência. Notemos que esse bem é percebido pelo sujeito como algo que lhe falta, algo que, se possuído, lhe trará certa felicidade.

Sendo assim, a ação tem um caráter transcendente. Não é realizada por si mesma, mas como um meio que visa alcançar determinado fim. Se não considerarmos essa transcendência, a ação torna-se algo incompreensível. Com essa lógica, quando uma personagem está em cena, seja personagem principal ou não, deve haver um motivo/razão para que esteja ali. A personagem que estar fazendo alguma coisa e com um motivo/razão para tal ato. Personagens não podem ficar “flutuantes”, ou seja, fazendo nada.

Além disso, por que as ações das personagens são tão importantes? Porque são as ações que fazem as coisas aconteceram em uma estória. São as ações que movem a estória pra frente.

Um filme, livro, quadrinho, etc… é comportamento. A personagem de uma estória deve ser ativa e provocar acontecimentos ou criar ações que em um futuro breve provocarão acontecimentos. É a básica lei da física de ação e reação.

As mais bem sucedidas cenas de abertura dão ao público uma genuína personagem com que ele pode se importar porque as estórias são sobre seres humanos. É através das ações de uma personagem que sabemos quem ela é, esse é o modo como a conhecemos. Algumas estórias, entretanto, são sobre alguma coisa.

Tome o exemplo de “O Senhor dos Anéis”. A personagem principal não é Frodo, Gandalf, Aragorn ou mesmo Gollum. É o Um Anel.

Tire o Um Anel da estória e você não tem estória. As ações de qualquer personagem estão ligadas direta ou indiretamente à mera presença e às tentações causadas pelo Um Anel.

Ou mesmo Cidadão Kane. Charles Foster Kane não aparece fisicamente até o final do Ato 1, sendo praticamente o ponto de virada de Cidadão Kane quando ele dá as caras. O espectador o conhece através das conversas entre outras personagens, em notícias de rádio e jornais e outros meios que não a presença física da personagem. E mesmo assim, sabemos de suas ações, o que quer e o que está acontecendo com ele. É brilhante porque ele está lá e não está lá.

ATO 1 – OS DEZ PRIMEIROS MINUTOS – CONFLITO

Conflito significa “em oposição a”. Relembrando algo que vimos anteriormente: “Todo drama é conflito. Sem conflito não há personagem; sem personagem não há ação, sem ação não há estória e sem estória não há roteiro”. Creio que a essa altura do campeonato, essa frase faz cada vez mais sentido, certo?

Assim como ação, um conflito não significa brigas, chutes e bombardeios. Conflito é um recurso dramático que estabelece sobre o que é sua estória. Um conflito pode ser personagem vs personagem, personagem vs natureza, personagem vs sociedade, entre muitas outras possibilidades.

Em algumas estórias, conflito pode ser algo tão intrínseco que só exista dentro da cabeça da personagem principal; de modo que as demais personagens não tenham noção dos problemas que a personagem principal esteja enfrentando.

Bons jeitos – e você vai descobrir mais conforme se tornar mais experiente – é criar uma situação para o espectador através da personagem principal  de modo que seja algo inesperado ou uma experiência perturbadora ou algo está para mudar.

E é com essa característica – a do conflito – que você deve mostrar ao público o que sua personagem principal precisa buscar/alcançar. Ou seja, você mostra a necessidade dramática de sua personagem principal.

Isso tudo é conflito.

ATO 1 – OS DEZ PRIMEIROS MINUTOS – ESPECIFICIDADE

Começos eficazes usam de pequenos detalhes. Podem ser detalhes em diálogos ou em cenários ou em pensamentos das personagens ou qualquer outra coisa. O uso efetivos de detalhes, mais do que qualquer outro fator, é o que distingue verdadeiros clássicos de uma boa estória. Os detalhes certos dão ao escritor/roteirista três vantagens.

Primeiro, os detalhes corretos ancoram sua estória em uma realidade concreta. Não é algo como “Susan é uma amante dos animais” e sim algo como “Toda noite Susan alimenta seu gracioso labrador com o que há de melhor para a raça dele na melhor pet shop da região”. Um animal específico, uma parte específica do dia, uma ação específica e outros detalhes. Isso tudo nos mostra – e não nos conta – que Susan ama animais.

Segundo, detalhes fazem sua cena inicial ficar diferente de outras centenas que sejam parecidas. No primeiro parágrafo você ainda não tem tempo para desenvolver detalhes profundos das personagens ou nuances do assunto de sua estória. Sua estória começa, como vamos dizer, em uma sala de jantar da mesma forma que outros dez roteiros que o produtor leu nessa semana – ou pior, no dia. Mas você terá um diferencial se souber como trabalhar com os detalhes. Os detalhes tem que ser frescos, originais, individuais, sem parecerem bizarros. Isso revela que o roteirista tem um olhar meticuloso e único. Produtores não querem ficar revendo mais do mesmo.

Por último, detalhes convencem um produtor de que você sabe sobre o que está falando. Uma estória que começa em um jantar não precisa ser em uma casa, mas pode ser em um restaurante. Algo como: “Então, estou enchendo os saleiros no final da noite e ouço o rádio novo que Charlie instalou na parede atrás do balcão, próximo à entrada para a cozinha. ´Unforgetable`, de Nat King Cole quase me faz esquecer de que meu avental está um trapo e preciso pedir um novo para o chefe”.

Esses detalhes vieram de uma roteirista que foi garçonete. Ela sentia o ambiente, embora não trabalhasse mais com isso.  Quando seus detalhes são acurados dessa forma, o produtor inconscientemente lhe dá o prêmio de credibilidade. Se você soa como alguém que conhece bem restaurantes, você poderá muito bem contar uma estória sobre um deles. Produtores notam esse tipo de coisa.

Inversamente, detalhes específicos errados podem destruir sua credibilidade logo no primeiro parágrafo. Um exemplo é este:

“O caminhoneiro loiro tinha apenas acabado de preencher o tanque de seu veículo com diesel semi-regular quando se dirigia para a bomba”.

Soa banal, ridículo, errado e incoerente.

ATO 1 – OS DEZ PRIMEIROS MINUTOS – CREDIBILIDADE

Entretanto, até os mais acurados detalhes podem acabar com você se sua escrita carecer de credibilidade. Esse é um conceito não muito fácil de estabelecer. Credibilidade está relacionado à confiança.

A boa escrita pode convencer o produtor que você pode lidar com o seu idioma nativo de forma segura. Esse senso de segurança ajuda o produtor a suspender a desconfiança no material que tem em mãos e entrar de forma pesada no que está propondo em seu roteiro.

“Se esse cara pode escrever de forma suave e clara, então pode contar uma boa estória, de uma boa maneira, ou me fazer sentir e pensar em algo além de minhas experiências de vida normais. Vou ler” – é assim que provavelmente você o fará pensar.

Ainda assim, credibilidade na escrita não faz uma estória ser bem sucedida por si só. Todo produtor vê centenas de roteiros que tem uma escrita leve e interessante, mas são confusos ou cheios de clichê ou implausíveis – ou quaisquer outras características negativas. A falta de credibilidade pode ser fatal.

Não é raro o caso de roteiristas iniciantes que possuem uma estória envolvente, personagens instigantes, mas com uma escrita tão truncada que o produtor carimbou um “NÃO” na capa do roteiro.

Por fim, quero deixar claro que quando escrevo “protudor”, também serve editor, caso seu objetivo seja os quadrinhos ou a literatura. Na próxima aula continuaremos os detalhes dos dez primeiros minutos de um roteiro cinematográfico e, mais para frente, como isso é aplicado em diferentes mídias.

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One Response to Aula de Roteiro 06

  1. meryelen says:

    gostei.

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