Aula de Roteiro 04

RECAPITULAÇÃO DA ESTRUTURA DO PARADIGMA

Como vimos na aula anterior, o esquema dos três atos divide um espaço imaginário, desenhando em uma espécie de “linha do tempo”, de forma a nos dar três partes, sendo duas de 25% (Atos 1 e 3) e a outra, de 25% (Ato 2). Só para relembrar, com outros exemplos, a primeira coisa que você deve saber sobre sua estória é: que tamanho ela tem? É um desenho animado de 20 minutos? É um curta-metragem de 12 minutos? É uma HQ de 10 páginas? Quanto tempo você tem pra contar sua estória?

Com esses exemplos em mente, ficaria assim:

No exemplo 01, vemos um esquema de roteiro de um desenho animado de 20 minutos. O Ponto de Virada 1 aconteceria com 2 minutos de roteiro e o Ponto de Virada 2 ocorreria com 15 minutos de roteiro. No exemplo 02, vemos o exemplo de um curta-metragem de 12 minutos e, em seguida, uma HQ de 10 páginas. O esquema não muda, não importa a mídia e o tamanho da estória.

Adicionando, em um roteiro haverá um e APENAS UM personagem principal. Isso ocorre porque a estória é contada do ponto de vista da personagem principal. São as decisões dessa personagem que movem a estória pra frente. São as ações dessa personagem que fazem o roteiro evoluir. Os outros personagens são reativos.

Além do mais, para aqueles que querem ainda assim colocar mais de uma personagem principal, imagina ter que criar Apresentação, os dois Pontos de Virada e Resolução pra cada um…

Outra dúvida pertinente: vamos supor que você está escrevendo Amazing Spider-Man. Ok, não é porque tem o nome do Homem-Aranha na capa da revista que em todo capítulo/história, a personagem principal é ele. É apenas o nome da revista. Para contar sua estória, você pode fazer com que a personagem principal seja qualquer um. Tem capítulos que a personagem principal é a Tia May. Tem outros que é a Mary Jane. Já em outros, é o Jameson. Na maioria das vezes, é o Peter. Porém, isso nem pode e nem deve ser uma regra imutável. Certa vez, John Byrne fez uma estória em que a personagem principal de uma HQ do Quarteto Fantástico era o próprio Edifício Baxter. O Ardiloso tentava invadir o prédio e tentava passar pelas defesas do lugar. Ao invés de contar pelo ponto de vista do vilão, ele deu um jeito maravilhoso e inusitado de usar o prédio como personagem principal.

E para os que duvidam que um objeto não pode ser a personagem principal, pense em O Senhor dos Anéis. A personagem principal não é Frodo, Gandalf, Aragorn e nem mesmo Gollum. É o Um Anel. Tira ele da estória… tem estória? Não.

É o Um Anel que mexe com as pessoas e seres. É devido a ele que todo mundo está em guerra. É ele que influencia o rumo de todos.

A ESTRUTURA DENTRO DA ESTRUTURA

Mas e estórias que não acabam de uma vez só? E uma HQ que não é só uma edição, mas sim, várias? E uma minissérie de TV? E um seriado cujos capítulos sempre tem continuação? Como faz?

Existe a estrutura dentro da estrutura.

Primeiro, deve-se ver tudo como uma coisa só. A estória é grande, de modo que foi dividida em partes, que são os capítulos ou episódios. A minissérie ou saga possui um paradigma principal, com seus Pontos de Virada e demais características. Porém, há o que chamamos de “estrutura dentro da estrutura”.

A “estrutura dentro da estrutura” nada mais é do que a elaboração de um paradigma para cada capítulo/episódio; ou seja, cada parte da estória tem uma estrutura menor, que colabora – mas não substitui ou suplanta – a estrutura principal.

Para ficar mais fácil o entendimento, vamos pensar em uma minissérie de 12 episódios. Obedecendo ao tamanho de cada Ato, eu tenho então 3 episódios para a Apresentação, 3 episódios para a Resolução e 6 episódios para a Confrontação. O Ponto de Virada 1 ocorre no final – última sequência – do episódio 03 e o Ponto de Virada 2 ocorre no final – última sequência – do episódio 9.

Essa seria a estrutura principal da minissérie. Entretanto, cada capítulo teria sua estrutura fechada, com um Ponto de Virada extra (que muitos roteiristas chamam de “Gancho Final”) no final de cada episódio, dando a pista de como será a Apresentação do episódio seguinte e prendendo o público à minissérie.

Veja o seguinte exemplo, clicando na imagem:

Com esse esquema, após acostumar-se, fica quase impossível se perder na minissérie, seriado ou HQ de vários capítulos que queria contar. A não ser, claro, que tome muito chá de cogumelo, como os roteiristas de Lost…

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2 Responses to Aula de Roteiro 04

  1. Paulo Fernandes says:

    Alguém sabe me dizer qual é a edição que o Byrne conta essa história do Ardiloso invadindo o Baxter?

    Abraços!

  2. Fred says:

    Tenho a mesma pergunta, fiquei curioso para ler a história do prédio como personagem principal.

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