Aula de Roteiro 03

DIVISÃO DO ROTEIRO

Toda a ação dramática se divide em cenas. Entretanto, nem todo roteiro é dividido assim. O roteiro para teatro é dividido em Atos. Para cinema, o mais comum são as Sequências. Na televisão, o roteiro é dividido em Blocos, que se subdividem em Sequências, devido aos intervalos comerciais. Em quadrinhos, são as Páginas – subdividida em Quadros ou Painéis. Em caso de mídias digitais, a divisão ocorre por Assunto, já que há os menus opcionais.

Em cinema e televisão, a mudança das sequências ocorre geralmente – ou seja, há excessões – quando há uma mudança de ambiente. Em outras palavras, mudou o local onde os personagens se encontram, mudou a Sequência. No teatro, as coisas mudam com a entrada e saída de personagens do palco.

CLASSIFICAÇÃO DO ROTEIRO

A atração pode ser ficcional ou não-ficcional e os formatos variam de acordo com a mídia a que se destina o projeto.

:: Cinema – Documentário, longa metragem, cura metragem, etc.

:: Televisão – Telenovela, seriado, minissérie, animação, etc.

:: Vídeos empresariais – Comerciais, institucionais, treinamento e produtos.

:: HQ – praticamente todas as formas conhecidas.

O QUE É UM ROTEIRO?

O roteiro é um documento descritivo que narra uma história que será contada em imagens e diálogos, localizado no contexto de uma estrutura dramática.

Para entender a dinâmica da estrutura, é importante começar com a própria palavra. A origem latina de estrutura, “structura”, significa “construir” ou “organizar e agrupar elementos diferentes”, como um edifício ou um carro. Ainda assim, outra definição de estrutura, e que se aproxima ainda mais do conceito de roteiro, é “o relacionamento entre as partes e o todo”.

O xadrez é algo que tem estrutura. São quatro: peças, regras, jogadores e tabuleiro. Elas fazem o todo – o Xadrez – e a relação que tem entre si fazem o jogo funcionar.

Um roteiro é um todo, e as partes que a compõem – ação, personagens, sequências, cenas, eventos, etc.

A estrutura de um roteiro – seja qual for a que você use – é que sustenta a estória no lugar. É o relacionamento entre essas partes que unifica o roteiro, o todo.

Esse é o paradigma da estrutura dramática.

O QUE É O PARADIGMA?

Um paradigma é um modelo, um esquema conceitual.

O paradigma de uma mesa, por exemplo, é um tampo com quatro pernas. Dentro dessa idéia, podemos ter uma mesa baixa, alta, estreita, larga, circular, de vidro, de metal, de plástico, mas ainda é um tampo com quatro pernas.

O paradigma de um roteiro, de acordo com o modelo dos Três Atos é apresentado dessa forma:



Ao ver o paradigma de um roteiro, imagine essa linha como se fosse aquelas linhas do tempo dos livros de história. A barra vertical à extrema esquerda é o início de sua estória e a barra vertical à extrema direita é o fim de sua estória. Esse é o tamanho que sua estória terá. Mas como assim? Se você quer fazer um roteiro cinematográfico, precisa escolher quanto tempo de projeção haverá. Em outra palavras, você precisa determinar quanto tempo tem o filme.

Vamos dizer que você quer contar tudo que pretende em 120 minutos. A barra vertical à extrema esquerda é o minuto 1 e a barra vertical à extrema direita é o minuto 120.

A mesma coisa acontece em outras mídias. Por exemplo, vamos imaginar que você quer contar uma HQ de 24 páginas. A barra vertical à extrema esquerda é a página 1 e a barra vertical à extrema direita é a página 24. Não importa a mídia, o esquema da linha de tempo é facilmente adaptado para qualquer uma delas.

ELEMENTOS DO PARADIGMA

Agora que você sabe o que é um paradigma e como funciona, vamos ver detalhadamente as partes que compõem o todo.

O paradigma é dividido em Atos 1, 2 e 3.

O Ato 1 corresponde a 25% da estória, ou seja, 25% da nossa linha de tempo.

O Ato 2 corresponde a 50% da estória, ou seja, 50% da nossa linha de tempo.

Também como Ato 1, o Ato 3 também corresponde a 25% da nossa linha de tempo.

Mas o que caracteriza cada Ato?

O Ato 1 é a Apresentação.

O sábio grego Aristóteles definiu as três unidades de ação dramática: tempo, espaço e ação. Um filme americano tem em média 120 minutos. Um europeu tem em média 90 minutos. Uma página de roteiro equivale a um minuto de projeção na tela. Em outras palavras, se um filme tem 137 minutos, ele tem 137 páginas em seu roteiro. Adaptar uma página de roteiro em um minuto de filme é função do diretor, não do roteirista.

O Ato 1 é a apresentação e, portanto, o início do roteiro. O roteirista tem esse espaço, 25% do tempo que tem para contar o que precisa, para fazer a apresentação. Se seu roteiro será um filme de 120 minutos, o roteirista tem 30 minutos de apresentação. Se o seu roteiro é uma HQ de 24 páginas, você tem 6 páginas para fazer sua apresentação.

É chamado de apresentação porque é esse espaço que você tem para apresentar personagem principal, seu objetivo condutor, trama principal, personagens secundários e outros detalhes importantes.

Em algumas mídias, principalmente o cinema, o Ato 1 também é subdividido em três partes, mas isso é assunto para uma aula um pouco mais adiante.

O Ato 2 é chamado de Confrontação.

Se você tem 120 minutos em seu filme e o Ato 2 corresponde a 50% dele, então temos 60 minutos, o que nos dá exatas 60 páginas para esse pedaço do roteiro. Neste pedaço, o roteirista mostra os obstáculos que a personagem principal deve encarar e superar a fim de conseguir o que tanto deseja.

Por isso é chamado de confrontação. A personagem principal encara tais problemas.

A estória inteira é impulsionada por algo chamado “necessidade dramática” – o tal objetivo – que nada mais é do que aquilo que a personagem principal deseja alcançar/conseguir/realizar durante seu roteiro.

Todo drama é conflito. Sem conflito não há personagem; sem personagem não há ação; sem ação não há estória; sem estória não há roteiro.

Dessa forma, todo roteiro é baseado em um conflito primordial.

O Ato 3 é a Resolução.

É o pedaço que, em um filme de 120 minutos, corresponde da página 90 até seu final, perfazendo os 25% exigidos. Em uma HQ de 24 páginas, vai da página 18 até a página 24.

“Resolução” significa “fim”. Qual é a solução do seu roteiro? A personagem principal tem sucesso ou fracassa? Vive ou morre? Vence a corrida ou não?

O Ato 3 resolve a estória. Amarra as pontas soltas. Mostra as consequências dos acontecimentos, decisões e ações que as personagens tomam/fazem durante o roteiro.

PONTOS DE VIRADA – OU “COMO SABEMOS AS DIFERENÇAS ENTRE OS ATOS 1, 2, E 3.

A essa altura, você deve estar se perguntando: “Mas… na prática, o que muda na passagem entre cada um dos Atos?”

O que faz mudar tem um nome: Ponto de Virada.

Há dois principais Pontos de Virada – há outros, mas é assunto também para outra aula – que fazem parte da estrutura primordial de um roteiro.

O Ponto de Virada 1 faz a ligação entre os Atos 1 e 2. A personagem principal quer alcançar sua necessidade dramática durante o Ato 1. E, conforme é mostrado as tentativas da personagem principal durante o Ato 1, em determinado momento – pra ser mais preciso, no final do Ato 1 – aparece o Ponto de Virada 1.

O Ponto de Virada 1 nada mais é do que um acontecimento que cria um enorme problema para a personagem principal, fazendo com que ela não possa alcançar sua necessidade dramática sem antes resolver os problemas criados pelo evento do Ponto de Virada 1. Colocando em linguagem popular, seria o famoso “A casa caiu”.

A função do Ponto de Virada 1 é colocar a estória em outra direção, agora que a personagem principal precisa resolver o problema apresentado por ele.

O Ponto de Virada 1 ocorre na passagem do Ato 1 para o Ato 2, ou seja, em um filme de 120 páginas, o Ponto de Virada 1 acontecerá na página 30.

O Ponto de Virada 2 faz a ligação entre os Atos 2 e 3. No Ato 1 temos a apresentação da personagem principal e sua necessidade dramática. No Ponto de Virada 1 aparece o grande problema. No Ato 2 a personagem principal enfrenta as consequências desse problema, tentando resolver tais agruras e, no Ponto de Virada 2 a personagem principal consegue a solução final… ou não.

O Ponto de Virada 2 é um acontecimento que, de duas, uma: ou é aquilo que resolverá todos os problemas da personagem principal, fazendo-a alcançar sua necessidade dramática ou é um acontecimento que afundará de vez suas pretensões, fazendo com que não seja possível que a personagem principal alcance o que quer.

CONSIDERAÇÕES FINAIS DO PARADIGMA DE UM ROTEIRO

Ato 1 – “Alguém, em algum lugar, querendo – ou tentando – alcançar alguma coisa”.

Em outras palavras, é a personagem principal, em seu lugar e época, atrás de sua necessidade dramática.

Ponto de Virada 1 – Acontecimento que cria um problema para a personagem principal, baseado em sua necessidade dramática, impedindo-a de atingir tal condição.

Ato 2 – Aqui a personagem principal encara as consequências criadas pelo problema surgido no Ponto de Virada 1.

Ponto de Virada 2 – Acontecimento que cria uma solução para o problema que a personagem principal enfrenta, baseado em sua necessidade dramática, fazendo-a de atingir tal condição. Ou acontecimento que enterra de vez as pretensões da personagem principal, baseado em sua necessidade dramática, impedindo-a de atingir tal condição definitivamente.

Ato 3 – Não importa se o acontecimento do Ponto de Virada 2 ajuda ou não o personagem: esse é o pedaço que mostra as consequências de todos os acontecimentos de sua estória, amarrando as pontas soltas, dando um fim a tudo.

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5 Responses to Aula de Roteiro 03

  1. Ramon says:

    Mesmo com grande inspiração do livro de syd field, voces estao de parabéns!
    Realmente estao dando uma aula de roteiro.

    • zaphq says:

      Olá Ramon, tudo bom?

      Não é “com grande inspiração do livro do Syd Field”, mas sim o fato de que falaremos das estruturas mais conhecidas entre as técnicas de roteiro e começamos pela dos 3 atos por ser mais universal. Não calcaremos tudo num estilo de estrutura só. Seria errado, pois quanto mais estruturas e técnicas um roteirista souber, mais completo será. Haverá aulas sobre todas as técnicas, não se preocupe.

      Um abraço!

  2. M04 says:

    Olá!

    Sem dúvida as aulas possuem conteúdo e uma explicação incríveis!!!

    Parabéns e obrigado por compartilhar!

  3. Wagner Oliveira says:

    A didática é impressionante cada final de tópico deixa sem duvida a vontade de continuar lendo.Fantástico! Parabéns pelo trabalho

  4. …Está mais do que claro que esta obra publicada se trata de uma resenha sobre a obra de Syd Field, entretanto alerto os autores desta para que a Resolução não seja traduzida ou entendida como “FIM”, da forma que está redigido em vossa resenha, assim iniciantes poderiam entende-la ou presumi-las de que se trata apenas de roteiro de narrativas fechadas, pois na verdade se assim for consistirá apenas em um dos tipos de resolver uma narrativa em um roteiro cinematográfico. Não é formula, mas paradigma, lembrem-se!!!
    Abraços,
    Marcio Varela

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