Aula de roteiro 02

A ARTE DE ESCREVER ROTEIROS

“Achar lugares onde o silêncio funciona melhor do que as palavras” – e o que essa frase quer dizer? Diz que o roteirista/escritor tem que ser breve no que escreve, tem que ser sucinto e claro. Há momentos em que as personagens devem falar e momentos em que devem calar a boca. Nos dois casos, evita a “encheção de linguiça”.

Não enrole. Se você pode dizer algo com seis palavras, por que usa dezoito? Cada descrição, cada diálogo, cada detalhe de um roteiro/romance deve ser enxuto. Deve haver uma razão – e forte – para cade palavra estar ali. Isso evita muita confusão por parte do leitor – se for um livro – e confusão por parte dos outros envolvidos – caso seja um projeto colaborativo onde você não tem total controle, como um filme ou uma HQ.

“MOSTRE, NÃO CONTE”

Mostrar e contar são a alma e o coração da descrição de uma cena, mas muitos roteiristas/escritores inexperientes tem dificuldade de dicernir a diferença entre mostrar e contar.

Imagine que você criou uma personagem chamada Amanda, que lembra um rato e você a apresenta através da maneira “contar”:

Amanda era uma jovem e tímida mulher que parecia um rato. Ela é baixinha e magra, com cabelos castanhos, olhos pequenos e um rosto pontudo. Ela sempre abria levemente  a porta antes de entrar em uma festa, dando-se assim uma chance de fugir caso não visse qualquer pessoa que conhecesse.

Agora vamos tentar novamente esta introdução, mas agora na versão “mostrando”:

Amanda esgueirou-se até a porta do apartamento de Felipe, queixo levantado, minúsculos pés que se equilibram na ponta dos dedos. Ela aproveita que o novo som estéreo de Felipe cobriu os ruídos quando levemente abriu a porta, de modo a não chamar a atenção de ninguém. Ela respira rapidamente e seus diminutos olhos negros moviam-se de um lado para o outro, procurando por algum sinal de vida conhecida.

Na versão “contando”, a descrição diz que Amanda olha e age como um rato. Na versão “mostrando” você a apresenta nos termos de um rato.

Porém, sempre há a boa e velha combinação, de modo que você pode ser breve e rápido, economizando espaço e mostrando que você sabe o que está escrevendo e, acredito, produtores e editores vão reparar nisso.

“Amanda situava-se na porta de Felipe com todos os maneirismos de um rato. Furtiva, atenta, olhos alertas, a pequena fresta aberta na porta era tudo de que precisava  para ver se na festa conhecia alguém.”

Diz aí, bem melhor, não? E falando do tópico anterior, é um texto bem mais direto e enxuto.

O “mostre, mas não conte” é uma lei máxima entre roteiristas e escritores.

Como exercício, use o mundo à sua volta. Pare numa pracinha. Testemunhe algo e tente descrever esse algo. Idosos jogando cartas numa praça. Um acidente de trânsito que acaba de acontecer. Mimetize isso. Escreva e reescreva. Com a reescrita, com certeza as versões mais recentes de seu texto serão melhores do que as primeiras. É o exercício principal para entender, na prática, o processo de “mostre, mas não conte” e também de sintetizar em poucas palavras tudo o que precisa dizer.

MÍDIAS E VEÍCULOS

Para determinar o formato de um roteiro, é preciso definir a qual mídia o projeto se destina: Cinema? TV? Quadrinhos? Teatro? Literatura? Games?

Para escrever os roteiros para qualquer mídia, é preciso conhecer os fundamentos do teatro, que é o pai de todas as maneiras de se criar narrativas. Há três aspectos fundamentais no teatro:

:: Conflito – não há ação dramática sem conflito. Forças opositoras, de algum modo, precisam existir.

:: Sonoridade – a força de uma narrativa dramática está na sonoridade do texto expressa nas falas, na locução, nos sons de ambiente, etc.

:: Estética – as imagens precisam ser criadas e visualizadas através de um conceito estético que harmonize formas, cores e movimentos, causando impacto visual no público.

Diferenças de linguagem:

O teatro é a arte do diálogo. Devido às suas características, o teatro é mais focado no diálogo para apresentar personagens, conflitos, situações, entre outros detalhes.

O cinema é a arte da imagem. É o inverso do teatro, sendo mais focado nas imagens do que nos diálogos, sendo estes um importante complemento, mas ainda assim, um complemento.

A TV é um misto entre teatro e cinema. Novelas e seriados pendem mais para o teatro (força nos diálogos) e minisséries pendem para o lado do cinema (imagens).

As HQs utilizam do “storytelling”, habilidade do desenhista de criar imagens que contem uma história sem o uso dos balões, sendo estes um complemento narrativo. Entretanto, o desenhista nada pode fazer se você, como roteirista, não tiver noções de storytelling em seu texto.

A internet é a arte da interatividade. Embora ainda engatinhando, roteiros para internet tendem a se desenvolver para um processo interativo entre show/atração e o internauta, dependendo da natureza do show/atração propostos.

CARACTERÍSTICAS DAS MÍDIAS

O modelo e diagramação de um roteiro depende de qual mídia um projeto é destinado. Irei falar dos detalhes de formatação de cada mídia em outras aulas, mas já é preciso ter uma noção em mente.

Teatro – época, local, cenário, personagens, observações. Eventualmente pode-se incluir a story line ou sinopse da peça.

Cinema – época, local, locações, personagens (principal, secundários, periféricos, extras e figurantes), apresentador, locutor ou narrador. Pode-se incluir observações sobre a trilha sonora, iluminação, dados referentes à story line ou sinopse do filme.

TV – época, local, ambientação, personagens (principal, secundários, periféricos, extras e figurantes), escaletas.

HQs – época, local, ambientação, personagens, observações, diálogos, divisão de quadros e divisão de páginas.

Empresariais – cliente, formato, duração, público-alvo, cenário, personagens, apresentador ou locutor, trilha sonora e observações.

FERRAMENTAS DO ROTEIRO

O roteiro de teatro é composto por diálogos, que são as falas das personagens, ao vivo ou em off; e por rúbricas, que são as descrições do que acontece em determinados momentos da peça, bem como os estados emocionais das personagens. Há ainda indicações de sons, efeitos, trilhas sonoras e  iluminação, que podem ocorrer em momentos específicos.

O roteiro de cinema é formado pela descrição das imagens, ou seja, tudo aquilo que vê-se na tela, incluindo letreiros. Há também o áudio, ou seja, tudo aquilo que se ouve no filme, o que inclui as falas das personagens, efeitos de som ambiente, entre outros.

O roteiro de TV também segue a descrição do roteiro de cinema acima, mas dependendo do show, pode focar em um aspecto em particular. A novela, por exemplo, foca mais nos diálogos, de modo que tem leves diferenças para o roteiro de cinema.

O roteiro de HQs é composto pelas descrições das imagens que a equipe de arte terá que criar nas páginas e os diálogos das personagens.

Mais uma vez, friso que detalhes de formatação para cada mídia serão apresentados mais tarde, em futuras aulas, conforme a programação deste curso online.

Vejo vocês na próxima.

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3 Responses to Aula de roteiro 02

  1. John says:

    suas aulas continuam ótimas. parabéns.

  2. marcos says:

    estou muito grato pela informação sobre o roteiro, espero aprender mais , sou um amante do cinema ja amais de 12 anos nuca tive grandes imformções , Roteiro mais a dica que aqui encontrei ja me ajudrão muito… muito obrigado

  3. jackson lourenço says:

    estou achando muito interessante as aulas,pois estou com um projeto de mangá em andamento e sou roteirista amador.qualquer dica da área para mim seria bem vinda.
    obrigado

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